12.10.19
Chuva, música, pianos e igreja
Este concerto só pode ser uma coisa rara porque não é todos os dias que se vê uma peça de pianos com o Keith Tippet e o Matthew Bourne. E de facto aconteceu ali algo muito especial porque teve momentos de levitação sonora e eu creio que tudo tem a ver com o espaço (não o da Union Chapel neste caso) entre os sons e o lento respirar de melodias e improvisos. O Keith Tippet é um tipo já com uma certa idade, geração antiga. Veste-se como um camponês, casaco de cores de pedra castanha, aquelas suíças largas de quem parece que fuma cachimbo, e umas calças verde-musgo, daquelas que não têm nada a ver com um blazer, mas a figura completa-se. Vem de uma era progressiva dos King Crimson. Desconheço a obra, mas sei que há ali alguma coisa importante. Num recente artigo da Wire ele fala de complicações de saúde, coisas cardíacas, e isso nota-se. Recorre a uma bomba de ar antes de começar a tocar. Antes dele tocou o Steve Beresford em duo com a Tânia Chen, que também foi muito bom. Mas ao passo que estes gravitam no constante arremesso de improvisos esquisitos, sempre os mesmos truques, aqueles fazem do experimentalismo uma coisa mais secundária. Concentram-se mais no som, na alma da música. O Matthew Bourne tem um disco do qual eu gostei muito que se chama moogmemory. Não tem muito a ver com o habitual registo jazz de piano, mas faz tudo parte do mesmo cosmos.
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