Estou na piscina a observar o Piruças através de lentes de contacto. É a primeira vez que o consigo ver na piscina sem óculos, sem o perder de vista a partir de alguns metros. Quer dizer, eu não o perco de vista, só o vejo muito desfocado, sem cara. Fico atento à voz e aos movimentos e só com isso já consigo, por exemplo, jogar à bola atirando-a de um lado para o outro da piscina. Só é pena que não possa ir para a água com lentes (obviamente), de resto tudo é um novo mundo:
1. Não existem janelas nem aros. Parece que a luz entra por todo o lado. O campo de visão alarga-se e tudo parece menos distante. Alguns objectos estão nítidos, cores mais puras, mais brilho, sem pó.
2. O nariz e as orelhas levitam. Não há peso algum nas narinas e nas orelhas e os gestos de dedos de levantar, ajustar, focar, tornam-se movimentos-fantasma, gestos do vazio.
3. Há uma sensação estranha de caminhar e sentir o ar nos olhos. Uma sensação de olhos esquisita para quem não está habituado.
4. Sensação também esquisita ao ver-me ao espelho a média distância. É caso para dizer que nunca me vi sem óculos numa realidade em movimento.
5. As experiências são tão novas que a primeira coisa que me lembro de fazer num primeiro sábado sem óculos é ir ao barbeiro cortar o cabelo. Pela primeira vez em 40 anos vou poder ver o que me fazem ao cabelo sem entrar naquele túnel desfocado para acordar uns minutos depois para uma aprovação repentina de corte.
6. Vou poder ir para a praia com o Piruças jogar à bola, dar cambalhotas, sem ter de guardar os óculos algures num lugar seguro protegido da areia, sem ter de riscar as lentes dos óculos com toda aquela poeira e maresia, sem lentes embaciadas pelo nevoeiro.
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