Era a ópera, a maldita ópera. As vozes esganiçadas, as poses de anfíbio inchado, os meus olhares entre o divertimento-sorridente e o medo-sorridente. Ambivalência de emoções, o riso para disfarçar o medo, o imaginário alicerçado em imagens cinematográficas repentinas. Tudo aquilo que era épico. A Valsa das Valquírias do Wagner, a Carmina Burana do Carl Orff. O Bolero era o contraponto neste mundo esquisito de música clássica. O crescendo simpático, a sensação de câmara lenta. O Ravel compreendia-me. Muito disto aparecia em sessões de filmes de domingo à tarde na televisão portuguesa. Coisas aborrecidas. Orquestras que ondulavam nos momentos turbulentos dos filmes, muito Walt Disney. Aliás, muito Walt Disney nos momentos mais dramáticos de tempestades e de lutas entre os bons e os maus. Clube Amigos Disney. Filmes de cowboys. Paisagens hollywoodescas. Os musicais que eu detestava. Ópera anfíbia. Gente a cantar e a fazer sapateado a meio de uma história. Os filmes de ficção científica que eu nunca soube apreciar por inteiro porque poucas naves espaciais me conseguiam levar para o outro lado do universo com uma orquestra terrena. Ficavam as melodias. Algumas passagens mais fáceis de entrar no ouvido, ou mais fáceis de serem adaptadas a um cântico de claque de futebol. O Sole Mio, gozo de anfíbio, tal como a melodia de onomatopeias do We All Stand Together do Paul McCartney, puro devaneio de animação em gozo múltiplo entre os graves e os agudos. Não conseguia gostar assim tanto para dizer que gostava da música pura de um instrumento de orquestra, um violino, um violoncelo, um trombone. No máximo dizia que gostava das percussões porque as achava tão fixes como uma bateria rock: o estrondo, a força física, o ritmo. Tudo muito físico. Todos nós gostamos do ritmo. Dos bombos das bandas de música, daqueles que atiram os maçanetes ao ar e os apanham com a outra mão numa sincronia entusiasmante, e das bandas-claque que iam bater o típico tum-tum tum-tum-tum para o estádio-campo durante hora e meia de jogo. A repetição. O Bolero sempre a mesma coisa, mas nunca a cansar. O crescendo uma enxurrada de energia, cada vez mais agressiva, rude, zangada, emoções ao alto e fé num deus longe da igreja que eu visitava todos os domingos por obrigação. Catequese imposta, claramente. Ainda hoje me regozijo com aquele final do Bolero. A dissonância.
Na minha casa (a casa dos meus avós dos meus primeiros anos) não se ouvia música no sentido intencional de ouvir música ou de tentar perceber melhor como ela funciona. Ninguém sequer falava de música. Era mais o estado de espírito, um fenómeno acústico que ocupava os lugares e as horas de silêncio. A música vinha de um pequeno rádio quando não era hora de missa ou relato de futebol. ou da casa dos vizinhos. Havia uma clara noção de que a música que a família compreendia era a música popular, as cantilenas folclóricas, os hinos religiosos das missas, o 'qual é a tua ó meu', uma outra lengalenga qualquer descontextualizada do significado das letras ou das expressões instrumentais. Ninguém cantava. Ou melhor, não me lembro de ouvir alguém cantar. Mas nunca cresci com a ideia de que não se gostava de música. Era só uma coisa distante. Uma coisa dos outros. Coisa de banda de coreto. Em casa não se celebrava nada com música, que eu me lembre não se dançava. Em dias de festa era só o ruído à volta da mesa, as gargalhadas, o pagode. Se eu decidia cantar alguma coisa, era por vontade própria, imitação de alguém, ouvido aberto aos sons à minha volta. Só mais tarde vim a saber que o meu avô materno gostava de cantar fado quando era novo, serenatas talvez, mas eu não me lembro de o ouvir cantar. A minha avó materna sabia umas músicas, umas modinhas melancólicas que eu ouvi surpreendido quando um dia lhe pedi para cantar qualquer coisa que ela soubesse para um gravador de cassetes. Cassetes que perdi, eventualmente. Eram cantigas de um tempo antigo, típicas dos anos 40 e 50, quando se ia batalhar para o campo. Cantos do trabalho.
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