No momento em que eu ligo os auscultadores e continuo a ouvir o podcast com música dos Sunn O))), já depois de ter deixado o puto na escola, a chegar ao fim da Kilburn High Street, há um velhote a caminhar estrada fora, bem pelo meio, traço contínuo. Uma furgoneta de entregas de supermercado dá-lhe umas buzinadelas. Ele ignora, imperturbável, gorro cinzento na cabeça, calças de ganga, um velho franzino. O tipo da furgoneta acompanha-o em ponto-morto e, com gestos, pergunta-lhe se ele é doido. Mas ele continua a caminhar estrada fora, num mar de trânsito, traço contínuo.
Eu viro na esquina e deixo de o ver. Será que ele continua? E para onde é que ele vai? Há um risco sério de ser atropelado, mas não me parece que haja uma lei que o proíba de caminhar pelo meio das artérias urbanas. Não o vejo mais enquanto escrevo isto, nem quando leio o livro científico sobre física quântica e universos paralelos. Não fico sem palavras, mas deixo-me levar pelo silêncio do homem franzino que caminha estrada fora, cidade fora, mundo fora. Traço contínuo.
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