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17.4.19

O Barbosa morreu

Já passou mais de uma semana e eu ainda não ser o que dizer sobre estas coisas súbitas. A distância é um nevoeiro muito cerrado, deixa-nos num limbo de emoções completamente desfasadas do tempo. Recebemos a notícia, temos uma primeira reação de raiva, tristeza, confusão. Depois, quando tudo já parece menos disperso, há um processo de regeneração de realidades: apaga-se uma e espera-se que outra venha. Um pouco como mudar de pele.
É neste processo de espera que as imagens começam a fluir: as nossas últimas conversas, os lugares, as cores, as vozes, um gesto, um tique, um aperto de mão, um até logo retórico. Agarramo-nos à única coisa que temos: uma memória gasta. E, ao mesmo tempo, queremos empurrar estes pensamentos para longe porque eles começam a repetir-se e não há nada a fazer. Habituamo-nos à ausência.
A ausência temporária é agora uma ausência permanente, definitiva. Um lugar vazio, uma conversa que vai ser só um momento imaginado, uma ficção inspirada no último encontro no café do costume: a conversar sobre as coisas mais simples do mundo, como se nos tivéssemos visto ontem, sem este abismo espacial entre nós, porque os amigos acompanham-nos desta forma. Nunca perdemos o tacto, nem aquela química das palavras certas.

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