Fui à Serpentine à hora do almoço. Vinte minutos para lá, vinte minutos para cá, vinte minutos para estar lá. Não estava muito frio. O sol espreitava por entre as nuvens e por entre as árvores do Hyde Park. Não espreitei o website para ver o que estava em exposição e ainda bem. Ainda bem porque se tivesse espreitado teria visto que os bilhetes para a instalação da Marina Abramovic (bilhetes gratuitos) estavam esgotados (o que não é bem verdade) e teria desistido da ideia. Mas eu sou dado ao improviso. Quando lá cheguei perguntei e a recepcionista disse-me que haviam entradas à porta (estranha expressão 'entradas à porta') e eu entrei. Obviamente, estes bilhetes são apenas uma forma de eles controlarem as massas e como à hora de almoço de uma quarta-feira nunca se passa grande coisa, deixaram-me entrar.
Estranho aparato. Assistentes de galeria vestidos com batas brancas, um som misterioso a pairar no ar. Tive de deixar as minhas coisas numa caixa: casaco, cachecol, telemóvel, auscultadores. Depois, disseram para me sentar num banco, tipo consultório, e explicaram-me o aparelho. Não percebi metade. Só percebi que tinha de tirar os óculos e que teria de escolher a graduação da lente que se adapta ao visor. Escolhi -5. Deram-me um saco de tira-colo, colocaram-me aquilo na cabeça e levaram-me para a sala. Era um tipo de sotaque meio afrancesado a pedir para eu dar-lhe a mão e eu dei. Fiz uma pausa para ele perceber que eu gosto mais de mãos femininas e acho que ele percebeu. O meu visor leu um código na parede e a partir dali comecei a ver a Marina: um holograma dela com um vestido vermelho em movimentos vagarosos no meio da sala. Conseguia ouvir os passos e o som do vestido através do aparelho que tinha na cabeça (não tinha nada nos ouvidos) e ouvia também o drone em sincronia com os movimentos. De vez em quando ela desfazia-se em inúmeros pontos azuis e só víamos a sombra dela a caminhar no chão. Outras vezes dava a sensação que algo muito estranho e horroroso iria sair dali, mas não. Era só ela: fantasma, figura santificada, visão estranha, presença absoluta de realidade aumentada. Os hologramas são muito estranhos porque há momentos em que, sem duvidar que aquilo seja uma projeção tecnológica, começamos a duvidar do nosso próprio corpo - somos reais? - e começamos a flutuar numa dimensão que não é a nossa: os sons, os movimentos, a consciência do nosso tamanho e do lugar que ocupamos.
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