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12.2.19

Corti-Cose

Quem me conhece minimamente bem, sabe que sou muito pouco dado a certezas e que ando muitas vezes à deriva nestas coisas das músicas e dos sons e das artes e tudo aquilo que flutua entre a abstração e o vago. Isto é, no fundo, uma forma simpática de dizer que sou um vira-casacas: hoje digo que não faço mais música (porque não há vida nem tempo para ela), amanhã digo que sonhei com uma ideia perfeita para um conceito-concerto, depois de amanhã digo que afinal a maravilhosa ideia é um absurdo, pelo caminho invento energias para fazer uma sessão de música improvisada num sítio qualquer e, por fim, entusiasmo extinto, fico a olhar para os retalhos gravados à procura de uma razão para perder horas a tentar discernir veias e artérias num corpo sonoro alienígena. Foi numa destas fases mais entusiásticas que me encontrei com o Filipe Coelho e com o José Moutinho: uma casa desabitada, electricidade improvisada, um portátil, dois microfones, e muitos mais instrumentos inventados (pelo Filipe Coelho, obviamente) do que instrumentos ditos convencionais (três guitarras com alguma electricidade estática), dois dias de agosto na província. Improvisámos.
Não é tarefa fácil: objectos sonoros dos quais nunca sabemos muito bem como extrair-lhes o som, uma aprendizagem do improviso ainda algo perdida (o mais difícil na música improvisada é encontrar o equilíbrio entre aquilo que nos sai na hora e forma como comunicamos os sons de uns para os outros, sem qualquer referência, sem instruções, sem imagens, sem as estruturas das jams - é só som pelo som), uma indecisão que nos deixa todos à deriva porque, no fundo, estamos fora da nossa zona de conforto. Porém, existe aqui uma razão maior que faz com que toda a incerteza se dissipe, e que é no fundo (aqui falo muito por mim) a vontade de quebrar com a distância e esta permanente busca de uma identidade que se foi perdendo ao longo dos anos. É que isto das amizades sobrevive muito (e aqui continuo a falar muito por mim) por uma ligação profunda à música. Sobreviver nem é a palavra certa, porque apesar das distâncias, dos desligamentos e das quebras de comunicação, continua a existir sempre algo que se reacende quando queremos. Mas isto é sempre outra história.
Directo ao assunto: isto chama-se corti-cose (trocadilho do orgão de corti com as máquinas de corte-e-cose dos nossos saudosos anos 1980) porque existe um encontro para o improviso puro, fora do palco (sem os constrangimentos de ter de acertar nos sons), num lugar também algo improvisado, que acaba por ser meticulosamente editado (mas não muito) em peças distintas. Daí também esta erupção espontânea de três sessões. Comecei com a ideia de giacometizar tudo numa sessão de meia-hora, mas como sou um vira-casacas que se delicia com imperfeições perfeitas, achei por bem deixar (quase) tudo no ar: os sons antagónicos dos microfones, captação algo descontrolada, disparidade de volumes , uma diversidade de linguagens musicais aparentemente incompatíveis. Há de tudo um pouco - drones, mecânica industrial, ambiências, guitarras em fuga às frases dominantes, cacofonia, contrastes, ruídos vs melodias. Há ainda esta sensação de reencontro, de conversa, de recodificação, de rascunho, de ensaio para outra coisa qualquer. Há momentos em que regressamos a um lugar-comum, a uma determinada sonoridade que atravessa décadas, fantasmas que habitavam outras músicas, outros tempos (de Kafka, por exemplo) e que vão continuar, de uma forma ou de outra, a habitar todos os projectos e todos as ideias futuras, quer estas aconteçam ou não.  E eu fico cada vez mais com a sensação de que ando a fazer a mesma música há mais de 20 anos.


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