Não é tarefa fácil: objectos sonoros dos quais nunca sabemos muito bem como extrair-lhes o som, uma aprendizagem do improviso ainda algo perdida (o mais difícil na música improvisada é encontrar o equilíbrio entre aquilo que nos sai na hora e forma como comunicamos os sons de uns para os outros, sem qualquer referência, sem instruções, sem imagens, sem as estruturas das jams - é só som pelo som), uma indecisão que nos deixa todos à deriva porque, no fundo, estamos fora da nossa zona de conforto. Porém, existe aqui uma razão maior que faz com que toda a incerteza se dissipe, e que é no fundo (aqui falo muito por mim) a vontade de quebrar com a distância e esta permanente busca de uma identidade que se foi perdendo ao longo dos anos. É que isto das amizades sobrevive muito (e aqui continuo a falar muito por mim) por uma ligação profunda à música. Sobreviver nem é a palavra certa, porque apesar das distâncias, dos desligamentos e das quebras de comunicação, continua a existir sempre algo que se reacende quando queremos. Mas isto é sempre outra história.
Directo ao assunto: isto chama-se corti-cose (trocadilho do orgão de corti com as máquinas de corte-e-cose dos nossos saudosos anos 1980) porque existe um encontro para o improviso puro, fora do palco (sem os constrangimentos de ter de acertar nos sons), num lugar também algo improvisado, que acaba por ser meticulosamente editado (mas não muito) em peças distintas. Daí também esta erupção espontânea de três sessões. Comecei com a ideia de giacometizar tudo numa sessão de meia-hora, mas como sou um vira-casacas que se delicia com imperfeições perfeitas, achei por bem deixar (quase) tudo no ar: os sons antagónicos dos microfones, captação algo descontrolada, disparidade de volumes , uma diversidade de linguagens musicais aparentemente incompatíveis. Há de tudo um pouco - drones, mecânica industrial, ambiências, guitarras em fuga às frases dominantes, cacofonia, contrastes, ruídos vs melodias. Há ainda esta sensação de reencontro, de conversa, de recodificação, de rascunho, de ensaio para outra coisa qualquer. Há momentos em que regressamos a um lugar-comum, a uma determinada sonoridade que atravessa décadas, fantasmas que habitavam outras músicas, outros tempos (de Kafka, por exemplo) e que vão continuar, de uma forma ou de outra, a habitar todos os projectos e todos as ideias futuras, quer estas aconteçam ou não. E eu fico cada vez mais com a sensação de que ando a fazer a mesma música há mais de 20 anos.
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