24.5.18
As aborboletas nas alâmpadas
O Piruças não cantou nem dançou. Ainda fez alguns movimentos no início da música, mas depressa voltou para o estado estático. A máscara de borboleta, com os cantos dos olhos virados para baixo acentuou-lhe a expressão triste de borboleta. Não me disse porque não cantou nem dançou, mas algo me diz que ele não aprendeu a letra. Assim sendo, em vez de fazer de conta, mexer os lábios e tentar acompanhar os outros tipo playback, ficou absorto à espera. Quando lhe perguntei no fim ele não disse nada. Não gosta de falar, está visto. Mas isto, atenção, não tem assim tanto a ver com genética ou personalidade ou feitio, mas sim com uma série de emoções que ele está a sentir e com as quais ainda não sabe muito bem como lidar. Basta o não ter confiança (neste caso, o não saber a letra) para ficar meio perdido na identificação das emoções. A reação dele é ficar parado, mas podia ser outra qualquer. E, claro, não fala sobre o que sente porque não sabe como se exprimir. Tal é próprio da idade. Mais típico dos rapazes do que das raparigas. Esta reação não é muito diferente daquela que ele tem quando decide não cantar a música das manhãs e neste caso nem se pode dizer que ele não sabe a letra. O que se nota é que ele fica sempre excitado quando chega à escola, sente-se assim um pouco nervoso (não necessariamente tímido) por ver tanta gente de um lado para o outro e fica sempre emocionalmente um pouco alterado. Esta é porventura a maior condicionante. Mas também é preciso dizer que esta performance de final de período (a música das borboletas) não estava muito bem ensaiada (notava-se que os miúdos de uma classe sabiam melhor a música do que os da outra classe) e que mudanças de última hora (a chuva condicionou a performance a uma sala que nem era a do costume) fizeram com que tudo soasse um pouco mais pobre do que o costume. Notava-de que estava tudo um pouco mais perdido, borboletas à deriva.
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