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26.3.18

music for imaginary films

Com o passar dos anos fui perdendo a paciência para apurar e depurar todo o mecanismo da canção ou do arranjo para uma canção (fique-se pela ideia de canção para tornar tudo um pouco mais fácil de dizer), mas também comecei a perceber que o tempo que temos não chega. Não há tempo para estudar, para narrar as ideias, para construir este mundo sonoro com método. Daí o ter chegado a esta encruzilhada onde o rock já está morto e a nossa ideia dele já nem sequer ser aquela ideia de estar num palco imaginário a estremecer com a electricidade de uma guitarra. A nossa ideia é antes uma ideia dos dias, de uma rotina, de um trabalho a tempo inteiro agarrado a computadores, das viagens de autocarro e de metro, da quantidade de gente nas ruas, da grande cidade, os automóveis, as vozes, as cores, os sons de trânsito na distância, o som da chuva e da estrada molhada. Há todo um mundo que acontece nos intervalos e entre tudo aquilo que gostamos de dizer que vivemos (nunca ninguém fala do som das ruas) da mesma forma que existe um mar de música entre aquilo que realmente ouvimos como música. Dei por mim a querer ouvir isto apenas, não as coisas que nos ficam no ouvido, mas sim os sons vazios, as ideias para um filme sem personagens , sem glamour, sem nada, porque no fundo não existe filme algum, não tenho imagens para estas músicas , não tenho diálogos nem personagens. Só tenho este vago estado de coisas que se tem vindo a acumular ao longo dos anos e muitas destas músicas representam momentos e episódios. Algumas destas peças já têm anos. Vêm de um outro tempo, de um outro filme, e de alguma forma sobreviveram à erosão dos anos e aí facto de terem sido órfãs de qualquer coisa imaginada que sempre se quis muito maior. Elas são a banda-sonora destes anos todos, fazem parte deles nas suas várias representações possíveis. No fundo, funcionam como o tema de um filme. Aqui quase sempre uma guitarra, mas no mundo das ideias quase sempre uma orquestra. A verdade, a realidade, é que não há filme algum, não há banda-sonora, não existem grandes possibilidades de estas peças encararem um palco ou uma fita. Aliás, nem há grandes possibilidades de estas músicas chegarem onde quer que seja, serem escutadas com atenção ou até tocadas por outros. Elas são o que sai e são o que são. Se eu pudesse vendia-as, como que vende uma peça de artesanato. Não todas, porque algumas delas são puros improvisos que não ficaram escritos nos dedos e, por isso, impossíveis de repetir. O que importa (ou o que me importa) é que estes rascunhos deixaram de estar cá dentro, porque a escolha seria entre estarem cá fora assim, ou uma gradual desintegração até ao esquecimento, ou até aquele momento, cada vez mais próximo em que já não há mais vontade de criar mais nada para um palco ou um filme, ainda que imaginários. Não tenho muito tempo, mas espero ter ainda tempo para a segunda parte disto, porque há medida que se vão exumando estes sonhos perdidos, há outros ainda mais antigos que espreitam, a pedirem eles também um filme. Uma sequela, portanto.

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