Foi um daqueles dias em que não fiz quase nada e fiquei horas a divagar à frente do computador. Ouvi música. Arrumei tarefas pouco prioritárias e espreitei alguns erros a ver se aprendo com eles. Isto é cansativo. Há duas coisas que eu não gosto nada. Uma é ter de andar atrás das pessoas para que elas cumpram coisas que têm obrigatoriamente de fazer sem ter ninguém a lembrar-lhes. É para esses mínimos que elas são pagas. Outra é ter de estar constantemente a conviver com erros possíveis, principalmente quando se é daquelas pessoas que não tem por hábito empurrar azelhices para debaixo do tapete a ver se ninguém repara. Quem assume azelhices livra-se delas em boa parte, mas muitas vezes tem de conviver com esse fio de stress constante de não deixar que nada escape. Habituei-me um pouco a isto no princípio, a não pensar em erros que possam advir, mas há dias em que não me consigo desembaraçar deles e começo a habitar nesta órbita desregrada de não ter mais nada em que pensar. Penso que me falta um pouco de equilíbrio, um pouco de descontração e mais calor humano também. Não é que me sinta rodeado de más ondas, penso que é mais aquele peso que a certas horas nos cai em cima, aquele vazio de estarmos sós. Olho à volta e não sei o que inventar. Saio à hora do almoço para uma curta caminhada pela Kensington High Street. Invento alguma coisa para comprar. Às vezes vou ao Waitrose comprar uma gulodice e um café. Outras vezes vou à Oxfam ver se encontro um livro interessante para o Piruças. Hoje, por exemplo, dei por mim no Wilko a comprar um recipiente para meter champô dentro quando vamos à piscina. Tudo coisas que inventamos para tapar um pouco este vazio de se estar demasiadas horas em frente a um computador ou a viajar dentro de um autocarro. A maioria das pessoas refugia-se na tecnologia. Mal saem, ligam-se a mensagens e facebooks nos telemóveis. Vão assim com eles na mão no elevador, na rua, ou até quando vão ao urinol: uma mão na pila, outra nos botões. Já o fazem de forma automática - será que têm consciência disso? Fazem isso para combater o vazio e já não conseguem estar num elevador ou numa fila com outras pessoas sem baixarem a cabeça para o ecrã. Estão sempre ocupadas. Com esta tendência, muita coisa se vai perder. As pessoas vão ser cada vez mais projeções virtuais de uma irrealidade. Sempre ocupadas. Sem tempo para nada. Cheias de interações no mundo virtual, mas gente solitária aflita quando tem alguém ao lado no elevador. Vamos lá ver, eu não sou a pessoa mais extrovertida do mundo, pronta a meter conversa com um estranho na fila para aquecer o tupperware na fila dos microondas, mas creio que quando se saca de um telemóvel de todas as vezes em que se está numa situação mundana - fila, elevador, sala de espera - mata-se qualquer possibilidade de um convívio social normal. Os tempos de dizer meia dúzia de imbecilidades para o gajo no urinol ao lado acabaram-se.
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