A carta mistura assuntos diferentes: falta de atenção, comportamento desviante para a idade, falta de compreensão e atraso no desenvolvimento da fala. Os primeiros pontos têm tudo a ver com o ser criança e há coisas que, por muito que queiram dizer o contrário, não são assim tão fáceis de educar. Por exemplo, o Piruças ignora muitas vezes quando falam para ele. Ele não ouve mal e percebe muito bem o que está a ouvir. Simplesmente não dá cavaco. Ainda hoje, a caminho da creche encontramos a Nina e a mãe dela que falaram para ele, "olá, como estás Piruças", e ele nada; continuou passeio fora a brincar com o guarda-chuva como se nada fosse com ele. Ele não é antipático nem nada, simplesmente fica na dele. Claro que gostaríamos que ele fosse mais sociável e que respondesse pelo menos com um olá. Já insisti com ele várias vezes e vou continuar a insistir. Mas estas coisas não se podem forçar. Ensinam-se e vêm com o tempo. Eu lembro-me de ir com o meu avô a sítios e pelo caminho ele falava com toda a gente e eu, macambúzio, ficava sempre intimidado quando falavam para mim. Um dia perguntei-lhe como é que ele conhecia toda a gente por quem passava na rua e ele respondeu-me que não conhecia toda a gente e que só cumprimentava. São comportamentos que se não nascem com as pessoas, são adquiridos de forma espontânea. O mau comportamento já é outro assunto, mas desde quando é que ser criança é sinónimo de bom comportamento? Pode ser sinónimo de medos de autoridade ou de uma educação cheia de regras, mas não é sinónimo de liberdade de correr e saltar e atirar almofadas pelo ar. É que o que se anda a educar aqui não é a não atirar almofadas pelo ar, é antes a ter a noção de quando se pode ou não atirar almofadas pelo ar, o que é algo muito difícil e complexo. Isso é liberdade, algo importante.
Uma outra questão é a questão da fala. O Piruças é trilingue e é normal que esteja um pouco mais atrasado na língua do que uma criança que fala apenas inglês. Ainda por cima, duas das línguas, o português e o espanhol, são muito parecidas, dando origem a uma espécie de portunhol. Enquanto que o inglês fica numa banda à parte em que ele liga e desliga quando é preciso, as coisas já se complicam mais com as línguas latinas. Eu já lhes expliquei isto, que para nós, portugueses, ele tem um sotaque espanholado e diz muitas palavras em espanhol. Mas para elas o Piruças diz coisas inteligíveis. Lá está, os portugueses percebem o espanhol mas os espanhóis não percebem o português. Assim sendo, fico na dúvida se é o Piruças que inventa palavras ou se são elas que não percebem portunhol. E será que há mais crianças na creche que tenham a mesma condição trilingue? Há, e há alguns brasileiros... que não falam português para os filhos. Assim sendo, o Piruças é caso único. Vai certamente ser visto por uma terapeuta, mas eu estou absolutamente convicto que as coisas se explicam de uma forma simples e tudo não passa de uma cautela da creche por nunca terem tido um Piruças como este antes. Talvez precisem de melhorar os métodos.
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