MANHÃ
O rapaz securita disse-me entre dentes: 'Já agora... aquele ali dentro daquele carro é o Brad Pitt'. Parecia ele, deveria ser. O carro dos anos 30 deu um solavanco mas lá arrancou. 'Estou a ver que ele sabe conduzir', disse eu, e vi o carro desaparecer na curva, provavelmente para dentro do edifício. Estavam a fazer um filme. Os adereços (automóveis, placas, vestimentas) e figurantes eram todos de um tempo de guerra, o edifício era um hospital. Passados cerca de três minutos, depois da passagem de meia dúzia de carros antigos de um lado para o outro, deixaram-me passar. Passei pelos portões, pelas câmaras, pelos figurantes com roupas antigas. Por segundos entrei no filme (ou na história?) e não foi preciso ver de perto nenhum Brad Pitt. O interessante mesmo é todo aquele cenário: o mundo fantástico dos filmes.
TARDE
O edifício voltou ao normal. Sem props. Sem câmaras. Sem gente de um outro tempo. Ficou o silêncio e a distância. Atravessei a rua, tirei uma fotografia. Na fotografia não existe nada mais do que um edifício. Na minha cabeça há toda uma história fugaz: automóveis, placas, gente misteriosa, um tempo de guerra que só conheço dos filmes. Amanhã vou passar lá outra vez. Vou ver o filme.

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