Descemos a rua no autocarro 32. Passámos a creche (não há creche, é fim-de-semana) e parámos numa caixa de multibanco para levantar duas notas. Seguimos para o mesmo barbeiro de dezembro: um tipo moreno, simpático, muçulmano. O salão estava vazio. Primeiro sentou-se o Piruças, numa almofada própria para ficar mais alto na cadeira. Sério. O barbeiro pôs-lhe uma vestimenta vermelha e riu-se para ele: "he's a man!" Ora sério, ora num sorriso envergonhado, o Piruças foi deixando o corte de cabelo acontecer. Estava grande à frente, quase a tapar os olhos. Foi de máquina, de tesoura, vassouras a limpar cabelos cortados, secador profissional. Impressionante ver o rapaz tão bem comportado, a sorrir sempre que o barbeiro canta as músicas árabes que passam na televisão. Parecia o menino da lágrima, mas sem lágrima e contente.
Depois portou-se também como um homem enquanto esperava pelo meu corte, atrás de mim, sentado num banco de espera. Eu, sem óculos, espreitava-o pelo espelho. Vi-o todo desfocado (tenho de tirar os óculos para cortar o cabelo) a desembrulhar o chupa que o barbeiro lhe deu de prémio. Não gostou muito do doce e no final deu-mo.
A caminho do parque passámos em duas lojas de caridade. Procurámos livros com dinossauros ou outros animais não extintos. Não encontrámos nenhum fixe, mas o Piruças deu conta de mais um boneco, um t-rex esquecido numa prateleira, e de um jogo com animais daqueles que são cartas para ir virando até encontrar o par. São cerca de setenta animais diferentes e o Piruças sabe o nome de todos eles.
Fomos ao parque mais perto, aquele que ele bem conhece por ir lá quase todos os dias com a creche. Mas desta vez não fomos para os baloiços aborrecidos. Fomos para uma estrutura de madeira, daquelas de aventuras à Indiana Jones, com escorregões, escadas, passagens secretas, cordas de piano incorporadas, um mundo de aventuras para miúdos um pouco mais graúdos. Descemos e subimos. Saltamos e escorregamos. Só nós. Não havia canalha interessada naquilo. Estava frio. O Piruças fungava e eu sem lenços. Limpava-lhe o nariz com os dedos, com as mangas, pouco importa. São momentos assim que importam. A ranheta que se limpa com os dedos e que se funga. Não é a treta das redes sociais, nem as fotografias bonitas para mostrar, nem as conversas de chacha, nem a permanente urgência em ter a vida ocupada por pseudices artísticas de absorver absorver absorver sem realmente ver nada, nem as segundas feiras de escritório a dizer como o fim-de-semana foi mesmo fixe com festas, passeios, viagens, amigos, convívios, cenas espectaculares, cenas altamente, cenas mirabolantes.
Eu nunca digo nada. Fui com o Piruças ao barbeiro, às lojas de caridade, ao parque, dei cabo dos costados a andar com ele ao colo, e passámos o resto do dia em casa a ouvir música. Quem quer saber disto?
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