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30.12.15

Vida de dinossauro

Há uma sensação estranha de não fazer nada nos últimos dias do ano. O trabalho está parado (o trabalho a partir de casa nunca foi tão desértico) e as ideias para um novo ano andam em rebuliço dentro da mioleira. Aproveito para tirar apontamentos cadavéricos de tudo aquilo que quis fazer em 2015 e não fiz. Reciclo algumas listas e prometo a mim mesmo que vou entrar nos eixos das palavras. Retomo algumas ideias pendentes.

Às vezes não sei bem distinguir a preguiça da inércia. Creio que a primeira acontece quando não queremos saber de nada, nem fazer seja o que for. A segunda é mais quando o esforço que temos de empregar nalguma coisa (ou a imaginação desse esforço) nos fazem desistir das coisas. Às vezes tenho preguiça, mas na maior parte das vezes sinto inércia. Como é que eu hei-de explicar isto? Por exemplo, o preguiçoso não vai ver um concerto porque não se quer dar ao trabalho, enquanto que aquele que sofre de inércia acaba por não ir por não ter com quem ir ou porque acha que o concerto não valerá muito a pena. Da mesma forma, o preguiçoso não toca guitarra porque tem pouca vontade de pegar nela e prefere ver televisão, enquanto que aquele que sofre de inércia precisa de um incentivo que tanto pode ser um concerto, uma guitarra boa ou alguém com quem tocar.

A inércia tem sido mesmo muita. Pelas mais variadas razões: cansaço, trabalho, exigências paternais, falta de ânimo para continuar, falta de tempo. Neste estado de coisas sofre a cultura e o bem-estar intelectual. Vive-se com uma ansiedade preocupante de nos tornarmos aquilo que nunca quisemos ser: um anónimo quase na meia-idade a falar mal de tudo para tentar justificar uma vida de marasmo. Tipo aqueles que se sentam na esplanada de um café a ver quem passa.

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