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29.12.15

Daddy Finger, where are you?

Nestes últimos dias do ano, dias de pouca luz, consigo ter na música dos Beatles o pouco do conforto sonoro que me tem faltado. Todos os discos-maravilha estão agora à disposição no Spotify e coisas do género e, de repente, parece que tudo se tornou mais fácil de ouvir. Não me lembro de ouvir estes discos com um par de colunas decentes ou uns auscultadores em que se percebe bem as harmonias das vozes ou o baixo fenomenal do McCartney. O estéreo, ouvido nos auscultadores, soa muitas vezes perturbante. Ora está a bateria toda de um lado, ou a voz toda do outro, ou uma guitarra que vem do nada. O curioso é que isto em colunas soa perfeito.

(naquele tempo não se ouvia música através de auscultadores e, veja-se só, nem sequer se ouvia a música em estéreo)

Tento fazer uma lista honesta da música que andei a ouvir em 2015 e não encontro practicamente nada que me tenha enchido as medidas. Não sei se isto é dos tempos em que vivemos, da falta de tempo para ouvir música, da pouca compra de discos ou de mim que estou cada vez mais desligado. Talvez seja tudo junto. Certamente. Ouço pouca música (como deve ser), vou a cada vez menos concertos, quase não toco guitarra, gravar coisas novas nem pensar, escrever só com a cabeça. "Algo tem de mudar", digo, mas se calhar é mesmo assim: um desvanecer para a distância, a ausência, o esquecimento. A vontade de querer fazer coisas chega só em momentos esporádicos e nunca se torna substância sólida.

A única música que tenho na cabeça é esta do Daddy Finger com dinossauros:
     

O raio da música toca durante horas e horas durante todo o dia. Ao pequeno-almoço, ao almoço e ao jantar. Na hora de ir para a cama e na hora de mudar a fralda. Depois toca na minha cabeça a meio da noite, no trabalho, ou ao tentar ler a autobiografia do Miles Davis. É também a única música que posso tocar na guitarra em horas de expediente. Três acordes só: ré, sol, lá. Por muito que a oiça, cante ou toque, fico com a sensação que me perco cada vez mais. Estou cá, eu sei. Tenho de repetir tantas vezes here I am que não posso mesmo duvidar que existo e que estou cá. Mas isto é ao nível dos dinossauros porque a crise existencial é inversamente proporcional. Não escrevo, não gravo, não leio, não componho, não toco, logo não existo.

E cada vez mais acho esta música mais linda e mais triste...
 

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