22.1.16
Cidadão sem identidade
Foi a primeira vez, em trinta e muitos anos de burocracias de identidade, que me pediram para tirar uma fotografia sem óculos. Cresci sempre com a ideia de que os óculos faziam parte da minha identidade, pelo menos foi aquilo que me disseram sempre desde pequeno. Faz sentido. Passo mais tempo com os óculos na cara do que sem eles e há gente que nunca me viu sem óculos. Mas não foi isso que me disseram desta vez quando fui renovar o cartão. Assim, lá fui eu para a máquina e deixo para a imaginação de quem lê isto o quão foi difícil para mim olhar para a câmara. Pior só mesmo da vez em que fui à inspeção e me pediram para ler umas coisas a quatro metros de distância sem óculos. Uma tropa aos berros: "o que é que lês aqui?", e eu "nada"; "e aqui?", e eu, "nada"; "e aqui caralho?", e eu já de olhos fechados, "também nada"; "andas a gozar comigo?", e eu "isso pergunto eu minha cara". Fui considerado inapto e fui para casa mais cedo. Curiosamente, não foi por ter reprovado no teste da visão que fiquei inapto. Eles estavam mesmo confiantes na minha habilidade em apontar uma espingarda, mesmo sabendo que no máximo eu conseguiria ver um quadro do Turner e distinguiria os objectos pelas cores. Enfim... Mas o que me faz mesmo confusão é olhar para esta fotografia no cartão de cidadão. Não sou eu. Não posso ser eu. Sou um cidadão, mas não tenho identidade.
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