11.10.15
Respiga de coisas escritas
Quantos dias vão ser precisos para poder descansar da viagem? Eis a pergunta que assombra o preciso momento em que abro as mãos para tentar perceber que linhas são estas: que futuro, que passado, que presente? Já passaram dois dias e nada parece ser fácil de esquecer. Os ruídos (principalmente os ruídos), o respirar estranho ao nosso lado, as mão de alguém à nossa frente, o cheiro a tempo morto, os jornais espalhados pelo chão e nos bancos. Às vezes, tenho uma breve visão que invoca o momento quando olho em frente na carruagem e já não vejo pessoas, mas sim uma imagem de casas e árvores em movimento. É uma visão breve, pode durar segundos, uma visão que interrompe este cansaço de espera. A viagem lembrada é uma imagem abstracta, muito pouco definida, desfocada. As cores são leves e incandescentes. Mas é só isso. Mais nada. Absolutamente nada. Toda a gente que viaja nesta carruagem tem a mesma expressão maquinal do movimento dela. De manhã, é um movimento lento, sonolento, gente que acaba de sair da cama ainda a cheirar mal da boca. À noite, é já uma lentidão com pressa e, portanto, bem diferente: a vontade de chegar a casa, barra, o comboio que não vai mais depressa do que a vontade de chegar. Pode ser tortura - não encontro palavra melhor do que tortura. O corpo parece que nos foge. Não a alma ou o espiríto ou o que lhe queiram chamar. Dentro da máquina só há corpo, matéria e tudo o que não é corpóreo é mero sonho. Os corpos arrastam-se nas plataformas uns contra os outros. Tocam-se ao de leve sem que no entanto deixe de existir uma distância segura entre eles e aquilo que eles transportam.
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