O som do radiador no quarto é um sopro líquido contínuo, eco entre as ferrugens de inverno tardio, engodo terapêutico de paisagens nocturnas entre a insônia e o pesadelo. Está escuro. Não se vê mais do que os traços de luz da porta entreaberta é uma luz fosca de lamparina de corredor. Os dois corpos deitados na cama não são bem os nossos. São os corpos de operários, outrora artistas, agora demitidos do ofício. Cumprem as regras dos horários de comboio e do ofício, num dia-a-dia movido a salário e contas para pagar no fim do mês. Respiram com a voz. Filtram o som do radiador através de guelras sonhadas. Pressentem a luz do dia a querer espreitar pela frincha e um despertador imaginário que nos assusta o corpo descansando.
O catraio dorme no quarto ao lado. Tem vinte e dois meses e desde o seis que ocupa a sala para dormir. O respirar dele é um sopro de noite inteira que ao acaso expele os sonhos próprios de criança sob a forma de choraminguice. Agora dorme profundamente. Os brinquedos espalhados no chão são o contraponto dos livros aritmeticamente guardados nas duas estantes baratas de metro e oitenta do Ikea. Um dos livros reluz no escuro. Poesias germânicas do século vinte, cheias de pó e cinza. Os livros dele estão por todo o lado: no chão, debaixo da cama, numa estante junto às fraldas, em cima de um sofá que nunca foi sofá porque foi sempre uma cama. Há uma luz de rua subtil que passa para o lado de dentro através de uma cortina arranjada à pressa e uma outra luz de router, agora estática; porque a esta hora os telemóveis estão parados, adormecidos na mesa de cabeceira.
Lá fora há um luar de Maio que ilumina muito ao de leve as folhas paradas das árvores. Há uma ou outra luz acesa na vizinhança; alguém que acorda a meio da noite para ir à cozinha ou à sanita. Ainda é cedo para os aviões. O céu está quase limpo, só algumas sombras cinzentas de nuvem em contraste com o luar. Os pombos dormem debaixo dos caleiros. Ouve-se um regougar ao longe da bicharada matreira depois de uma busca incessante pelos caixotes de lixo das ruas e restos possíveis escondidos nos jardins. Lutam pelo território entre gatos. O regougo atravessa quintais. Aproxima-se. Uma primeira raposa aparece no topo de um coberto vizinho; a sombra dela projecta-se no muro em contornos alaranjados de uma luz pública. Uma outra atravessa nas abertas de um cercado de madeira quebrado e espera. Escuta atenta à medida que se aproxima do estendal. Pára. A outra desce o muro e fica de vigia enquanto a outra se aproxima um pouco mais da casa, da porta da garagem, da porta da cozinha. Investiga. Ainda sente o cheiro ameno dos restos frios de uma noite de geada. Ossos de costeletas dentro de um recipiente de plástico de supermercado. Abocanha um e leva-o para um lugar seguro no meio do quintal na camuflagem negra das ervas compridas. A outra faz exactamente o mesmo e ficam ambas, cada uma no seu canto, a degustar o último regalo da noite, enquanto o dia a abre numa lentidão manhosa.
No chão da cozinha há rasto de lesma. Saem durante a noite quando o som do frigorífico é um trabalhar mais alto do que a pinga de uma torneira velha. Deslizam num chão de plástico e trepam chinelos, crocs, um brinquedo esquecido, um livro caído ou um tapete desarranjado. O vagar da noite dá-lhes tempo de sobra nos lugares húmidos para que, assim que a aurora se adivinhe, possam regressar às madeiras bolorentas da cave através das frinchas mais improváveis. Há um canto da cozinha, aquele junto à porta, que se transforma num recinto de patinagem artística em câmera lenta. As lesmas. Bichos que uma idosa de Coimbra um dia me disse serem limpos porque andam na hortaliça. Acredito. A centopeia é supostamente um dos animais mais limpos do planeta, embora seja muito difícil de acreditar que ela tenha tempo para se lavar do chulé de tanta pata.
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