Páginas

21.8.15

a electro-mecânica de Bastien

Sento-me na fila da frente de olhar atento à maquinaria de roldanas coloridas e nos movimentos peculiares de um tipo tímido todo de negro. Uma outra máquina, mais convencional, projecta as sombras da máquina na parede, por vezes justapostas com loops de vídeos antigos: cantoras gospel, uma baterista, um organista blues, um pianista. O homem de negro tem um trompete de bolso apetrechado com mil e uma técnicas de manipulação sonora. Umas vezes leva com uma mini-secção de palhetas, outras vezes tem uma trompa de borracha a fazer bolas num copo de água. O homem de negro chama-se Pierre Bastien e poderia ser o único visionário na alegoria da caverna de Platão. Com uma nuance. Dá-nos as sombras e revela os sons. Deixa-nos ver o segredo da acusmática através da exposição dos bastidores ali tão perto. Nós, entretidos, ficamos ali numa alegria visual sabichona. Conseguimos ver. Porém, não ouvimos tudo. Bastien leva-nos ao precipício do desarranjo com 3 ou 4 loops disjuntos e não existe mecanismo cerebral que os aguente na mesma página. O desarranjo começa logo na estrutura mecânica. Nesse conseguimos entrar. Mas o vídeo a sobrepor-se nas sombras deixa-nos numa posição frágil. Bastien, sabendo muito bem disso, atira-nos umas linhas de trompete jazzístico que nos arrebata até ao osso. Diz-nos de forma subtil: esqueçam tudo o que sabem sobre música, a lógica, a matemática. Se querem ouvir isto têm de fazer tabula rasa. Porque isto não são muitas músicas ao mesmo tempo. Isto é sempre a mesma música.

Sem comentários:

Enviar um comentário