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9.2.21

A quarentena dos nossos olhos

Faço testes à visão todos os anos e tento não ir sempre o mesmo sítio. Gosto de ouvir diferentes opiniões e de ver até que ponto é que o optometrista está preparado para entender o funcionamento do meu olhar zarolho. Hoje fui pela primeira vez fazer o exame à Boots aqui perto de casa. Era meu hábito procurar os locais perto do trabalho, mas agora com a pandemia não me resta outra coisa senão ir ao sítio mais próximo. A optometristra que me calhou desta vez ficou por momentos sem perceber porque é que eu não conseguia ler as letras com o olho direito. Eu próprio fiquei confuso. Tal como daquela vez que me mandaram ler sem óculos na inspeção. Ela a dizer-me que o meu olho direito tinha piorado cerca de quatro dioptrias num ano quando tal parecia ser pouco provável. A verdade é que tenho -14 e tal no olho e só tenho -11.50 nos óculos e já há alguns anos que espessura ficou por ali. É muito provável que ele vá piorando sem eu me aperceber (talvez um dia desista de trabalhar, ele que até nem trabalha muito), mas também não faz sentido nenhum tentar acompanhar com lentes cada vez mais grossas. Ela percebeu e acabou por concluir que tal é provavelmente o caso. Eu já sabia disso, só que me tinha esquecido. Eu sabia que estava algures entre o -14 e o -15 há já alguns anos, mas confesso que fiquei um pouco confuso quando ela me pediu para ler letras desfocadas. Mesmo assim, durante aqueles minutos, não fiquei lá muito preocupado com isso. Afinal de contas, o meu olho direito apenas me dá alguma visão lateral. Tudo o que vejo bem vem praticamente do meu olho esquerdo. Ora, foi aqui que a coisa ficou um pouco menos agradável porque ela reparou que eu tinha um aumento de 0.25 no olho esquerdo, o meu olho bom. Ele tem estado surpreendentemente estável há muitos anos nos -5.50, apesar do constante esforço de trabalho (e não só) à frente dos ecrãs. 0.25 não é muito, mas quando me é feito o teste de ler as letras mais pequenas, reparo melhor na nitidez que uma nova lente pode acrescentar. Claro que isto não me faz diferença alguma no dia à dia à secretária, mas ela acabou por justificar a diferença com o trabalho a partir de casa com a pandemia, mais tempo à frente dos ecrãs, é óbvio. Mas será? O que o noto mais é o impacto da quarentena na nossa memória. Esquecemo-nos de tudo. Dos dias, dos aniverários e das dioptrias, coisas tão preciosas para mim. No caminho para casa lembrei-me de alguém a dizer-me que o meu olho esquerdo tinha aumentado 0.25 mas que não valia a pena mudar a receita. Normalmente, só se opta por isso quando há um aumento de 0.5. Quando cheguei a casa fui espreitar os meus registos e reparei que numa prescrição de 2017 que tem 5.75 e, de facto, tenho um par de óculos que têm esse mesmo valor. Assim sendo, confirma-se a minha ideia: não foi este ano que aumentou 0.25 porque esse aumento já está registado. Fui ainda ver os resultados dos testes que fiz quando fui ver se poderia ser operado e confirmei que, de facto, há um valor mais aproximado de 5.75. Tudo indica que não foi nada a quarentena que me veio piorar as vistas. Porém, fico a pensar no meu olho direito quando vejo que na mesma altura tenha -12 no olho direito (não sei se isto é uma constatação exacta ou se é um valor no limiar do operável) e passados dois anos tenho um valor bem pior. Eu sei, com toda a certeza, que a minha receita do olho direito parou ali nos -11.50, mas é sempre estranho quando nos pedem para ler letras desfocadas. Nestes últimos dois anos apareceram-me floaters no olho, mas tal não parece ser razão para ver pior. E se, de facto, a minha vista direita tiver piorado dois valores em dois anos? Não posso fazer muito e nem me passa pela cabeça (nem pela cabeça de nenhum oftomologista), trocar a minha lente de fundo de garrafa de champanhe por outra de garrafa de champanhe ainda mais grosso. Aliás, já me sugeriram diminuir ainda mais as dioptrias da lente do olho direito porque eu não iria notar nenhuma diferença e ficaria com um par de óculos esteticamente mais equilibrados.

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