Este Histoire(s) Du Cinéma de Jean-Luc Godard (ECM) apareceu ao acaso com um abrir de um livro guardado e resume um pouco das experiências sonoras e fílmicas de 2020. São as bandas-sonoras de documentários gravados entre 1988 e 1997, colagens sonoras de excertos de filmes, diálogos, música, ruídos que contam a história do cinema. São obras que ficam algures entre a música concreta e a composição fílmica. É difícil discernir os dois mundos porque as composições sonoras são muitas vezes bandas-sonoras para filmes imaginários e certamente que Godard compõe muitas das imagens a pensar em sons e música. Este é ponto de partida para uma reflexão sobre os hábitos de cinema caseiro em 2020.
A primeira reflexão tem a ver com o meio através do qual se vêm filmes. Anda o mundo todo ocupado ('ocupado', palavra exata) com os desígnios do Netflix e da Amazon, uma montra extremamente limitativa dos nossos horizontes fílmicos. Puro entretenimento com um ou outro bom filme pelo meio. As portas abrem-se quando se adere a uma subscrição do BFI só para ver os documentários sobre a história do cinema do Mark Cousins - Women Make Film: A New Road Movie Through Cinema - e por ali continua a estrada da descoberta. Alguns dos melhores:
The Cave of the Yellow Dog (Byambasuren Davaa)
Shoah (Claude Lanzmann)
Sorry We Missed You (Ken Loach)
The Death of Mr. Lazarescu (Cristi Puiu)
Dispossession: The Great Social Housing Swindle (Paul Sng)
A Personal Journey with Martin Scorsese Through American Movies (Martin Scorsese)
Varda by Agnès (Agnès Varda)
Departures (Yôjirô Takita)
Sweet Bean (Naomi Kawase)
A segunda reflexão tem a ver com a verdadeira diversidade que o mundo do cinema nos tem para oferecer. Do Japão à Roménia. Do Reino Unido à América Latina. Era bom que as pessoas percebessem que a diversidade não é propriamente as diferentes cores que se encontram no Netflix-Amazon, ou filmes mudos, a preto e branco, ou filmes de ação, Hollywood. A diversidade verdadeira tem a ver com a narrativa de uma linguagem desconhecida e com as mensagens profundas e sem artifícios. No fundo, imagens puras da realidade e não fabricações de um mundo fechado em casa. É por este filme obscurecido que precisamos de estudar a arte das imagens e dos sons. Tudo o resto é um molde, uma cópia de uma cópia de uma cópia. Repetição ad infinitum.

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