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31.1.21

O silêncio chegou agora ao quarto. A luz espreita pela porta entreaberta.

Foi para a cama sozinho e está a choramingar de luz acesa. Não quer ler o livro, não quer estar sem ninguém por perto, nem no quarto ao lado. De vez em quando reage com palavras atiradas para o ar. Não entende porque é que tem de cooperar connosco e não ter tudo aquilo que quer. É um castigo. O castigo do quarto. Aquele que nós nunca seguimos à risca porque não é uma coisa que tenhamos aprendido por nós. O nosso castigo eram umas sapatadas, e já não era mau porque muitos levavam de cinto. Mandar o rapaz para o quarto é mais um drama doméstico do que um castigo que funcione. Contudo, cumpre a boa função de o fazer estremunhar as emoções e de o deixar num estado mais consciente e menos rebelde. Quer queira ou não, reflecte. Haja ou não diálogo, mas este acaba por acontecer sempre depois da catarse de lágrimas. Os nervos, quando amparados, são uma rede subterrânea de novas ideias e palavras. Apagam-se as luzes e a conversa é já uma maré pacífica depois de um turbilhão. Nada novo. São ciclos regulares. Inevitáveis. São eles que nos permitem esvaziar o espaço deste ruído todo que nos rodeia, das rotinas viciadas, da claustrofobia das quarentenas e deste crescente desapego da realidade que conhecemos. Nunca foi fácil e não é agora (muito menos agora) que vai ser.

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