Nos meus tempos de jornalista amador eu andava com pedaços de papel nos bolsos e pequenos cadernos de apontamentos. Porque não conseguia reter muita da informação na cabeça, habituei-me a escrever ideias curtas sempre que ia ver um concerto, uma peça de teatro ou uma exposição. Assim sendo, era um hábito sacar de caneta e papel a meio de uma música só porque uma ideia para uma frase me atravessava o palco das ideias para o texto. Enquanto o fazia, perdia o momento do palco, o que até nem era nada mau entretenimento quando estava a assistir a alguma coisa que não era do meu gosto. Porém, quando estava a ver um concerto de alguma coisa interessante, tal era uma constante interrupção do normal fluxo das simples ideias de que está ali só para experienciar o concerto. Aos poucos comecei a deixar de querer fazer cobertura dos eventos nos quais apenas queria estar como espectador. Pior foi quando me começaram a pedir para tirar fotografias. Ao ter de cumprir também esse papel, perdia não só o momento, como também a cabeça que precisava para escrever sobre ele. Tinha de ser três ao mesmo tempo: o espectador, o escritor e o fotógrafo. Tudo papéis interessantes... quando separados. Ser tudo isso ao mesmo tempo era uma asneira de jornalismo. Uma distração constante. Uma experiência retalhada. No dia seguinte, ou nos dias seguintes, quando tinha de escrever sobre o concerto, só tinha na cabeça momentos retalhados, difíceis de colar uns nos outros, peças quase impossíveis de dispor numa narrativa.
Passaram anos e hoje o mundo vive-se de forma retalhada, muito por culpa de um objecto que temos nos bolsos. Ele serve para tirar fotografias, para fazer videos, para apontar coisas, para ler mensagens, para ver o email, para navegar nas redes sociais, para fazer coisas que pouco ou nada têm a ver quando o que estamos a fazer na realidade. O mundo é agora um cenário dantesco da minha experiência fugaz como jornalista amador (digo amador porque não me pagavam, não porque não fizesse jornalismo de qualidade). E eu estou cada vez mais avesso a este mundo das distrações constantes. Olho à minha volta e vejo muita gente adulta, com idade para ter juízo, completamente viciados no pequeno ecrã. Vejo um pai a ver um episódio do Netflix durante uma aula de natação da filha e outros a navegar nas redes sociais durante aquela meia-hora que passa numa rapidez tremenda. Eu guardo o telemóvel no bolso. Não escrevo isto na hora porque se o fizer, se escrever um parágrafo que seja, não consigo acompanhar a aula e perco os pormenores dos movimentos e dos exercícios para poder fazer comentários no caminho para casa. Chama-se a isto estar presente. Chama-se a isto viver todos os momentos, sejam eles grandes momentos ou passagens corriqueiras das nossas rotinas. Chama-se a isto ter consciência do uso que fazemos das tecnologias. Por isso não é de estranhar que nunca haja tempo para nada e que a nossa vida seja sempre uma vida ocupada com coisas que, na verdade, não interessam para nada.
Passaram anos e hoje o mundo vive-se de forma retalhada, muito por culpa de um objecto que temos nos bolsos. Ele serve para tirar fotografias, para fazer videos, para apontar coisas, para ler mensagens, para ver o email, para navegar nas redes sociais, para fazer coisas que pouco ou nada têm a ver quando o que estamos a fazer na realidade. O mundo é agora um cenário dantesco da minha experiência fugaz como jornalista amador (digo amador porque não me pagavam, não porque não fizesse jornalismo de qualidade). E eu estou cada vez mais avesso a este mundo das distrações constantes. Olho à minha volta e vejo muita gente adulta, com idade para ter juízo, completamente viciados no pequeno ecrã. Vejo um pai a ver um episódio do Netflix durante uma aula de natação da filha e outros a navegar nas redes sociais durante aquela meia-hora que passa numa rapidez tremenda. Eu guardo o telemóvel no bolso. Não escrevo isto na hora porque se o fizer, se escrever um parágrafo que seja, não consigo acompanhar a aula e perco os pormenores dos movimentos e dos exercícios para poder fazer comentários no caminho para casa. Chama-se a isto estar presente. Chama-se a isto viver todos os momentos, sejam eles grandes momentos ou passagens corriqueiras das nossas rotinas. Chama-se a isto ter consciência do uso que fazemos das tecnologias. Por isso não é de estranhar que nunca haja tempo para nada e que a nossa vida seja sempre uma vida ocupada com coisas que, na verdade, não interessam para nada.
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