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23.9.20

O meu escritório improvisado só existe porque é improvisado

Uma estrela florescente caiu do tecto. Não sei a qual galáxia pertence nem o quão longe ela está do nosso planeta. Apenas sei que ela caiu do tecto e algo me diz que são as condições climatéricas que definem estes fenómenos da gravidade. Espreito pela janela e vejo que não está a chover (choveu de noite, ouvi) mas é muito provável que tal aconteça durante a tarde. Estamos no outono, definitivamente. A primeira constipação veio com o regresso às escolas. Agora, na eminência de uma segunda quarentena, tudo é possível na obediência cega às mensagens confusas que vêm de todo o lado. Ainda há poucas semanas falava-se de um regresso gradual aos escritórios. A partir de hoje os planos voltam à estaca zero. Tudo fechado e nave espacial principal desligada. Eu não me importo. Fico em casa no silêncio possível dos bairros londrinos. Automóveis na distância, sirenes de emergências, uma máquina a cortar árvores. Bem melhor do que a cacofonia de vozes dos escritórios abertos e música quase sempre foleira a bombar num canto qualquer. Já não sei bem o que é isso. Tenho só uma memória difusa, como um pesadelo ainda presente mas já esquecido. Não existem mundos perfeitos, mas este é sem dúvida melhor: uma janela aberta, luz natural, ninguém a espreitar o que ando a fazer, guitarra no canto sempre pronta para um acorde abrupto, uma cama para um descanso pós almoço, um jardim, um livro, um par de colunas decentes só para mim, uma fuga ao supermercado mais próximo sempre que é preciso. Só tenho é que me lembrar de tirar proveito disto mais vezes.

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