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21.8.20

Dia 3/14

10:22
Aqui não há eucaliptos e pinheiros. Só casas e prédios e árvores pontuais... e uma vizinha longínqua do outro lado da vista que gosta de se vestir à janela. Dei com ela há pouco de lingerie vermelha a ver-se no reflexo da janela do quarto e a falar ao telemóvel. Continua bem feita. Sem traços supérfluos de quarentena. Aposto que se preocupa cada vez menos com as vistas exteriores. Não sei exactamente que ângulos ela vê, nem sei se ela nos vê a nós deste lado.

16:49
Costumo sair de casa à sexta-feira à tarde. Seja para fazer algumas compras no Waitrose mais próximo, seja para ir até a um parque ver árvores. Nos melhores dias de sol levo o rapaz comigo e dou-lhe um gelado. É muitas vezes o truque para o tirar de casa. E hoje até nem está mau tempo. Está vento, mas está sol. Bom dia para espreitar os arredores e os sítios do costume. Viver um pouco os espaços citadinos. Arrumar as ideias na caminhada. Mas é o que tempos. Esta quarentena absurda que não nos permite caminhar sós, sem falar com ninguém, sem tocar em nada, sem parar para nada. Fazem do viajante um perigo ambulante, pior do que o indivíduo vulgar no pico da pandemia. Só porque viemos de um país na lista negra. Um país que já vai deixar de estar na lista negra depois de sábado. Um absurdo.

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