2.6.20
Dias estranhos num mundo estranho
Ontem foi dia da criança, dia de aniversário, dia de espantar espíritos pelas ruas em caminhadas até ao parque; e hoje continua a ser dia da criança, a caminhar pelas ruas com uma cana de pesca de peças metálicas com magnetes. É também Terça-feira Negra. Mais um esforço por um mundo melhor, ainda que esse esforço seja sempre uma forma vaga de continuar a alimentar a máquina do entretenimento. Quando liguei o portátil para um regresso, sempre custoso, ao trabalho remoto, vi uns títulos de e-mails sobre a Terça-feira Negra. Mais conversa da industria, pensei eu, e mandei o meu primeiro relatório do dia. Continuei a ver os títulos entre conversas sobre os trabalhos de escola do dia. Títulos, só títulos. Depois, assim que o pressentimento pontificou o trajecto dos dedos, reparei que a Terça-feira Negra era um pouco mais do que um sinal de luto nas redes sociais e que existia mesmo uma ideia de fechar as portas por um dia. Juntei palavras, juntei frases, e vi que hoje era dia de estar desligado, um dia de reflexão como ficou apontado. Não percebo porque é que se tem de tirar um dia para reflectir sobre coisas sobre as quais eu reflicto todos os dias. Nem preciso que ninguém me venha recomendar livros e filmes para reflectir sobre o racismo. Mas não me queixo muito, tenho mais um dia para travar este lugar de ansiedade e stresses e continuar a olhar pela janela. O que não está certo é não ter recebido uma mensagem de ninguém a avisar que hoje era dia de 'reflexão' o que só confirma as minhas queixas de falta de competência de equipa directiva (leia-se, managers). Enviam mensagens no Whatsapp com fotografias e gifs de patos, invocam reuniões a toda hora para falar de coisa nenhuma, mas são incapazes de mandar um aviso simples a quem não está a para de decisões à última da hora. Assim sendo, enviei um relatório que n não deveria ter mandado, quanto não fosse pelo simbolismo de não fazer nenhum neste dia. E aqui estou eu, sentado na cadeira a escrever isto, quando queria estar a arrumar as ideias laborais e extra-laborais. Porque amanhã já sei que vai ser mais um daqueles dias estupidificantes e esgotantes. Uma reunião às 10, outra às 11, outra às 3. Um pedido para fazer isto, mais aquilo, mais aqueloutro. E o dia de hoje a ser mais um dia na agenda, a assinalar essa grande causa que é o ficar um dia agarrado às redes sociais e compras de livros sobre racismo na Amazon que nunca são lidos.
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