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1.4.20

Uma corrida de vinte minutos e uma meditação pelas ruas sem parar para ver a realidade deste mundo que vivemos

Acaba-se o ofício às seis da tarde, está tempo feio, cinzento, pouca vontade para dar os habituais chutos na bola com o Piruças (ele mais entretido com as tecnologias depois de uma sessão de dança), e saio disparado a correr para os lados de West Hampstead. Mais pela vontade de ver as ruas do que propriamente pela vontade de correr no frio. Reparo que há menos gente na rua do que o costume, mas há gente na rua, muita gente mais a correr como eu do que a passear. Algumas pessoas carregam sacos de compras. Não é uma cidade-fantasma, mas é uma cidade enigmática, deprimida, sem alma. Na Mill Lane vejo o mini-mercado com um balcão improvisado à porta e duas pessoas à espera de serem atendidas. Boa ideia. Ninguém entra, só diz o que quer que o dono traz das prateleiras. Controlo dos clientes e da mercadoria. Mais à frente, no Little Waitrose, há três ou quatro pessoas cá fora à espera da vez para entrar. Não sei que mercadoria encontram lá dentro. O mesmo nos supermercados populares mais à frente, Tesco Express e Sainsbury's. Continuo a correr, a respirar pela boca, narinas meio-entupidas por este tempo frio. Vou até à estação de West Hampstead (não espreitei o M&S uns metros à frente) e desço até Kilburn. Tudo na mesma. Lojas abertas, fruta à porta e filas à porta de um outro Tesco e de um outro Sainsbury's. Espaços reservados entre as pessoas porque sem este controlo não haveria fila nenhuma. Está mau para os pedintes. Um ou outro continuam sentados no chão, junto às caixas de multibanco, à espera de qualquer coisa. São eles os verdadeiros observadores disto tudo. No cruzamento da Iverson Road, vejo do outro lado o pub North London Tavern todo tapado com placas de madeira e é esta a imagem que fica neste dia que não é primavera nenhuma. Continuo a correr. Passo pela Folkies e recordo a última vez que lá fui depois da piscina comprar umas palhetas para o clarinete: quando o Piruças se interessou por umas taças tibetanas o dono (penso eu que é o dono, ou um deles) riu-se e disse que 'curava o coronavírus'. Agora a loja está fechada. Subo pela Exeter Road já com a perfeita consciência de que não vale a pena sair para nada que não seja ir ao supermercado mais próximo comprar alguma coisa essencial e tudo o resto pode ser feito online. Chego a casa, tomo um banho, e espreito as notícias enquanto comemos a sopa. Tal como era previsível, os números começam a subir neste país. Mais preocupante é este estado de coisas em que nada está preparado para isso e que todos os imbecis tories continuam a mentir todos os dias. O Boris desapareceu do mapa, esse mentiroso charlatão. Vêm os outros todos agora dar carvão ao típico discurso retórico quando toda a gente sabe que estão a mentir com os dentes todos. Não há ventiladores nenhuns, não há equipamentos para os médicos, não há nada que garanta um país que se diz dos mais avançados do mundo. E os Estados Unidos vão pelo mesmo caminho. Não perco mais tempo e encontro mais uma vaga para entregas no Sainsbury's online (não sei se é sorte ou bom serviço) - na próxima segunda esperamos mais mercearia.

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