11.4.20
O COVID é tão previsível como o tempo. Ontem diziam que hoje ia chover, mas está sol.
Da janela do quarto vejo as pessoas a caminhar lá fora, algumas delas com sacos de compras, mas muitas no passeio. Há vizinhos nas janelas, nas varandas, nos jardins. Observo tudo isto enquanto esborrifo os lábios em delírios de clarinete. Primeiro, só no treino de tentar encontrar as notas graves tão difíceis de encontrar. Depois, a ouvir de tudo um pouco com clarinetes, de Tom Waits a Captain Beefheart, com algum jazz pelo meio. Os sons lá vão saindo, uns melhores do que outros, e eu vou contando as pessoas e os carros que passam. Os guinchos saem quando penso em toda a demagogia a desviar as atenções para o facto das pessoas saírem de casa. Que outro remédio? Um pouco de free jazz para toda esta desarrumação de ideias. Uma perfeita banda-sonora triste para as mais de 900 pessoas por dia quando as notícias dizem os filmes que o Boris andou a ver nos cuidados. Parece uma paródia, mas não é. Ninguém quer realmente saber. Tudo parece ser tido como padrão de normalidade. Que número é que é preciso para que toda a gente saia à rua? 30 mil, 40 mil, 50 mil? Vem uma música do Robert Wyatt com um som invulgarmente agudo. Melodias estranhas. O importante agora é saber quando é que podemos sair à rua para retomarmos as nossas vidas normais, fazer algumas compras no supermercado, ir ao parque, dar um passeio. Depois, quando se fizerem as contas, é preciso sair à rua para protestar como deve ser porque festejar nunca foi comigo. É preciso derrubar esta gente que continuar a mentir-nos, cambada de inúteis e incompetentes. Só não são incompetentes quando precisam de ser calculistas. Há notícias que dizem que as escolas vão abrir dentro de poucas semanas, há outras que dizem que o pico da epidemia vai acontecer daqui a uma semana. Até agora ainda não percebi o que é Boris quer fazer. Alguém percebe?
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