24.4.20
Hoje é dia de espantar espíritos e continuar a bater palmas imaginárias por um mundo melhor do que este
Mais um dia de sol entre os prédios de Kilburn. Ontem, às 8, foi o charivari habitual das quintas-feiras. Uma coisa muito fraquinha, sem entusiasmo, a ecoar por entre os edifícios. Palmas, sons de objectos, tipo panelas e brinquedos, buzinadelas, alguns ohhhs, e eu a gravar tudo. Não bato palmas, não sou de bater palmas. Tudo soa falso porque estes vizinhos nem sequer falam uns com os outros. É diferente noutros lugares porque as pessoas se conhecem, falam umas com as outras, cumprimentam-se. Aqui ninguém fala com ninguém. Batem palmas para o vazio, incapazes de estar a meditar em silêncio sobre tudo isto que se está a passar no mundo. Além disso, não existe espontaneidade. É uma coisa programada para todas as quintas-feiras às 8. Uma coisa mecânica de ir à janela para lembrar que o mundo existe. Perfeitamente desnecessária e sem lógica alguma. Só falta começar a ser uma obrigação. Multa para quem não bate palmas, multa para quem vai lá fora caminhar só, multa para quem diz o que pensa. Vamos antes fazer de conta que vivemos num mundo diferente. Onde não existem escroques como o Trump a sugerirem experiências com injecções de desinfectante. Ao que isto chegou.
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