26.3.20
Começo a chegar à conclusão que o minimalismo não é só bom gosto, é preciso fazer dele a regra dos nossos dias de ofício.
Vou fazer de conta que já são onze da noite e que o dia foi uma viagem pacífica entre livros, música e coisas criativas. Vou fazer de conta que não há este estado de coisas à nossa volta e que o tempo que temos e todo nosso. Vou fazer de conta que espero mais um dia de amanhã como os outros, qualquer coisa que me tire desta permanência dentro da máquina e do não querer saber de toda aquela gente que não me diz nada. Caio na cama antes da hora. Estou desligado. Cansado de todas estas chamadas ao longo do dia e de um constante saltitar entre isto e aquilo, coisas que não interessam para nada. Toda a gente a querer que sejamos super-heróis de coisa nenhuma. Muitos que não vêm os traços invisíveis, os ziguezagues que vamos traçando ao longo do dia que só servem para manter a máquina a trabalhar e para dar cabo dos nossos sonhos. De que importa o que se passa lá fora quando há tanto para resolver cá dentro? E as palavras já não me dizem nada. São só fuligem para esta combustão lenta. São só mais um discurso agravado pelo tempo e pelo ruído. Digamos que é um cansaço de corpo todo que nos derrota com vagar sem que nós possamos parar para dizer 'já chega, hoje não trabalho mais'. Afinal de contas, que prisões são estas? Reclusos de vírus, de trabalhos, de tudo. Sem tempo para mais nada. Porque nos falta do intervalo. Porque nos falta a matéria-prima do sossego, porque nos falta a viagem. Desligamos uma tarefa e já entramos noutra. Agora nem sequer temos o autocarro a levar-nos de um estado mental para o outro e isso faz-nos falta. Fazem-nos acreditar que ganhamos esse tempo de viagem do trabalho para casa, mas isso é tudo uma mentira. Não ganhamos nada. Agora temos o trabalho que nos invade a casa e nos apaga a vontade de fazer outras coisas mais importantes para nós do que para os outros. E o problema disto tudo nem é o vírus, é antes toda esta palermice que nos rodeia, a forma como este mundo existe, tão a jeito de quem não faz nada e tão destrutivo para quem faz ou quer fazer muito. Tudo deveria entrar em colapso. Tudo mesmo, tábua rasa. Precisamos de uma renascença autêntica.
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