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25.6.19

Olhos, essas coisas que deixam entrar luz

Em pouco mais de uma semana fiquei a saber (quase) tudo sobre os meus olhos. Primeiro veio o floater no olho direito (em inglês, a palavra floater serve também para descrever os cagalhões do olho cego que ficam a boiar na água) e uma preocupação, talvez excessiva, com as minhas condições oculares em contexto laboral, isto é, a procurar números, palavras e datas durante horas seguidas. Marquei uma consulta no optometrista e ele nem precisou de me fazer teste algum para descrever exactamente o que eu tenho no olho. Estava certo e eu não duvidei. Voltei para o escritório bem informado, ciente de que uma visão com flashes e muitos mais floaters seria uma visita certa ao hospital. Mesmo assim, e apesar da condição 'não-há-nada-a-fazer', passei uma semana inteira a tentar perceber aquelas linhas tentaculares a flutuar de um lado para o outro, com vontade de meter uma pála no olho à Camões, só para me distrair da distração. Mas quando fazia os meus habituais 108 khatu pranas no passado sábado no Queens Park, dei por mim a pensar: 'Não preciso de ir ao hospital, mas porque é que eu não hei-de ir? Afinal de contas eles não me conhecem de lado nenhum, não sabem o que via e o que eu vejo agora e se eu disser que estou a ver mais coisas, eles são bem capazes de me fazer os testes necessários." E assim foi. No sábado à tarde rumei ao hospital com departamento de visão mais próximo, ali junto à Edgware Road, meia-hora de autocarro 16, fiz a minha ficha e esperei. Fui atendido por uma enfermeira, depois por uma optometrista e, por fim, por um médico-estagiário oftamologista. Era um tipo asiático, franzino, e sabia muito bem o que estava a fazer. Pela primeira vez tive de me deitar para fazer um teste à visão. Disse ele que o meu floater era consideravelmente grande e tinha a forma de uma medusa. Eu também acho que sim, só não tenho a certeza porque quando tento olhar bem para as formas circundantes, ele foge, vai de um lado para o outros feito fantasma que deambula cá dentro. Explicou-me tudo muito bem. Que isto que é uma coisa que acontece a toda a gente, uma espécia de geleia do olho que se descola com a idade e que depois deixa uns fios à solta. Acontece a toda a gente a partir dos cinquenta, mas é algo que acontece a partir dos quarenta aos míopes, principalmente àqueles que têm dioptrias a menos (-11.5 no meus caso) porque os olhos míopes são maiores e mais susceptíveis a pressões da idade. Duas coisas boas: 1) quando estas coisas acontecem pode haver um deslocamento da retina, que é algo grave, e a minha estava em bom estado. Aliás, uma medusa deste tamanho é o pior que eu posso ter, e se tal aconteceu sem problemas de maior na retina é muito provável que não venha a ter mais problemas. 2) em princípio, o cérebro vai-se adaptar com o tempo e vai começar a ignorar a medusa. Pode demorar meses, mas o médico garantiu que tal vai acontecer. A correr ainda melhor, disse ele, a medusa vai dispersar-se e sair do meu raio de visão. Espero que sim.
Hoje o assunto foi outro. Cansei-me da conversa da treta dos médicos e dos optometristas ao longo destes anos e fui fazer testes para ver se posso ser operado. Confesso que não fui para lá entusiamado ou com certezas prévias de que gostaria realmente de me submeter a uma intervenção a laser. Gosto da ideia de não ter de usar óculos, mas não gosto da incerteza. Fui só com um objecto primeiro: o de tentar esclarecer o meu caso de uma vez por todas. Fiz cerca de meia-dúzia de testes antes de falar com um técnico especialista e ele foi muito franco e não demorou muito tempo a esclarecer-me. O meu olho direito tem dioptrias a menos para ser submetido a uma intervenção cirúrgica (algo que eu já sabia) e por causa disso desaconselharam-me a fazer seja o que for. Ele explicou-me melhor que o meu olho esquerdo ficaria óptimo, mas existem riscos, e não vale a pena correr riscos quando o que eu tenho de bom funciona. Nem é a questão de fazer o possível no meu olho direito (continuar a ver mal, mas menos mal) e o melhor no olho esquerdo, é mais a questão de as coisas poderem correr mal e perder a visão relativamente boa que tenho no olho esquerdo. Esclarecido. Melhor foi quando começamos a falar sobre esta diferença entre os olhos (ele disse-me que tinha um problema parecido, pior até pelos vistos) e ele me disse que eu não precisava de andar com uma lente de -11.5 no olho direito porque tal não me faz diferença nenhuma. Ele explicou-me com alguns testes com símbolos e luzes (algo que eu sei naturalmente) que a minha visão vem do lado esquerdo e o lado direito é só um forma de conseguir alguma visão lateral. Acrescentou ainda que eu deveria experimentar duas lentes iguais (-5.5 cada em vez de -5.5/-11.5) a ver se eu notava grande diferença, se é que possa notar lá grande diferença. E eu fiquei a pensar se uma lente -5.5 no olho direito me ajudaria a abstrair a medusa. É uma experiência a considerar. Ele sugeriu ainda que eu fizesse um trial com lentes de contacto com -5,5 em cada olho porque essa era a melhor forma de identificar as disparidades de visão. Poderia até ir mais longe na experiência e usar uma lente de contacto só no olho esquerdo porque o meu cérebro funciona praticamente só com ele. E porque era um tipo porreiro, chamou-me à parte para um canto onde não nos ouvissem e aconselhou-me a comprar lentes na óptica do Asda (eu nem sabia que eles tinham uma) porque eles vendem as lentes mais baratas e mais finas do mercado. Ele disse que eu posso comprar uns óculos baratuchos lá que eles metem umas lentes super-finas de graça. Não sei se eles têm o tipo de óculos que eu quero, ou se darei lá muito bem com lentes de contacto, mas são propostas muito convidativas à experiência. Nunca ninguém me disse coisas destas, foi sempre aquela conversa de treta, mas este tipo sabe muito mais que os outros. Por uma razão muito simples: vê como eu à pirata, tão mal ou pior.

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