Dia de assembleia na escola, uma curta apresentação da turma do Piruças sobre as estações do ano, umas frases decoradas e três canções sem música de fundo. O Piruças entrou sorridente, disse as duas frases dele sem problemas nenhuns, voz bem projectada, melhor do que todos. O problema veio com as canções. Assim que começaram todos a cantar, ele ficou com ar preocupado, com ar de quem se esqueceu das letras. Entrou numa espiral de lágrimas mais ou menos controladas e eu sempre à espera que ele lá engatasse na música. Afinal de contas, nem era preciso saber a letra; com a coreografia, um pouco de playback não seria complicado.
Mas ele não conseguiu engatar na canção. Ficou ali, só ele, com o peso todo do mundo nos ombros. Nunca me custou tanto estar na plateia e fiz um grande esforço para não chamar por ele para a minha beira. Se o chamasse, iria dar demasiada importância aquilo. Tal seria algo a fazer pela professora. E foi exactamente o que ela fez quando se apercebeu que ele não iria cantar a terceira canção, It's a Wonderful World.
No final ele veio sentar-se no meu colo. Disse-me que tinha tido vergonha (eu sei bem o que isso é porque passei por situações semelhantes quando era da idade dele) e que tinha ficado a pensar que eu não ia gostar. É óbvio que estas são as razões que ele encontra para tentar explicar o surto emotivo a meio de uma performance. Mas no fundo é mais algo que ele não consegue controlar e que o deixa completamente absorto. É normal? Sim, certamente. Mas também é uma indicação que ele é diferente, que há algo nele que pede uma inteligente atenção e uma capacidade de observar para lá da superfície.
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