Há sempre um nervoso miudinho quando um dente cai na véspera do grande dia da performance de natal e há outro aos abanicos, prestes a deixar ficar mal o narrador quando chega a vez dele dizer a frase ensaiada (só no papel para nós). Imagine-se o dente a saltar na hora H e a acertar na primeira pessoa da frente. Seria uma estória memorável para todo o sempre. Mas tal não aconteceu, e o Piruças continua confiante para mais duas atuações, uma hoje à tarde (a mamã vai estar nesta) e outra amanhã de manhã, à mesma hora da de hoje.
E lá estava ele no lado direito do palco improvisado, sorriso de orelha a orelha, orgulhoso da sua camisola de natal que toca música e faz pisca-pisca de luzinhas. Todo contente por eu estar ali para o ver. Acena assim que eu chego e não tira os olhos de mim, a não ser quando algo acontece à volta dele. E eu faço mesmo. As músicas eram as mesmas do ano passado (penso que a peça em si não estava muito longe) e ele não cantou duas. Teimosia de artista, lá tem as razões dele. Mas não se pense que ele finge ou mexe os lábios com palavras inventadas. Ele faz caretas. Mexe na camisola. Olha de canto para a míuda ao lado dele com asas de anjo porque as pontas batem-lhe na cara. Eu a rir-me por dentro, a fazer-lhe caretas também, sempre à espera que ele lhe dê uma cotovelada e a faça cair do estrado. Mas ele não é desses. É mais daqueles de ficar com cara de desenho-animado à espera da próxima canção. Uma que ele goste.
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