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8.9.18

Fim de dia desastrado

Depois de tantas pedaladas, tantos incidentes com buracos, aventuras pelas colinas de Hampstead Heath e terrenos desnivelados de Kilburn, peões, velocidades por vezes excessivas, eis que chega o dia em que aqui o patego perde o equilíbrio e o controlo absoluto do veiculo chamado trotinete (em inglês scooter) e estatela-se de frente no chão levando o Piruças com ele e meia-dúzia de ovos. Os ovos fizeram uma omelete comestível, mas a cara do Piruças ficou em mau estado: nariz lábio e queixo arranhados. Fomos de frente, eu completamente impotente para amparar a queda, o Piruças ainda sem aqueles reflexos de colocar as mãos à frente. Não é a primeira vez que a roda se enfia num buraco. É um baque lixado, com o qual eu consegui sempre lidar. Mas desta vez, não sei, era um saco com algumas compras à frente, era um buraco inesperado, era uma visão já turva com o anoitecer, era o meu cansaço do dia, a minha distração, os meus reflexos lentos depois de dias e semanas a arrastar móveis. Estavamos já a chegar a casa, ia muito devagar, a subir ligeiramente, e o raio da roda bateu no buraco, o saco pesou para a frente e eu ao bater com o dedo grande do pé esquerdo perdi completamente o equilíbrio, o meu, o da trotinete, o do saco, o do Piruças que apesar de ter caído por cima do pão e dos ovos foi embater sem reflexos de mãos com a cara no chão. E eu ali, em queda, sem conseguir fazer nada para amparar aquele embate em câmara lenta. Resultado: uns arranhões faciais pouco bonitos (os meus na mão, no dedo grande do pé e no joelho, sem interesse algum), o rapaz a chorar e eu com um sentimento de culpa desastrada a remoer-me todo por dentro com tamanha azelhice e facilitismo. Pedi-lhe desculpa vinte vezes, disse-lhe que a culpa tinha sido minha outras vinte, e de todos as vezes ele respondeu, a chorar, assustado, 'não faz mal daddy', o que deixaria qualquer um em lágrimas, ora eu não fosse uma pedra-pomes emocional nestas coisas, cheio de buracos por dentro, mas seco por fora. Estávamos a vinte passos de casa e foi só passar por água e deitar creme cicatrizante. Mas claro, doía, ardia, e o aspecto da coisa a dar a ideia de maior estrago, apesar de ser algo superficial de arrancar pele e deixar à vista o arranhão maior na narina direita. Erros que nos pesam. Claro que visto de fora pode parecer algo muito banal, daquelas coisas que acontecem, infelizmente, mas que acontecem. Mas cá dentro a coisa é bem diferente. Nem é tanto a culpabilidade. É uma confusão de sensações que provavelmente só emerge nestas coisas de ser pai ou mãe. Algo que vai ao âmago da existência, aos sentimentos primários, aqueles instintivos, de sobrevivência. Eu explico melhor. Durante a queda há uma primeira reação instintiva de tentar amparar aquilo, de fazer tudo e mais alguma coisa para proteger o puto, puro instinto de sobrevivência, nem que tenhamos de partir uma perna nossa, qualquer coisa para que nada lhe aconteça. Isto obviamente em conflito com a nossa própria condição de progenitor que também não pode sofrer nada grave porque também somos o garante deles para o futuro. Até a própria comida nos dá uma mensagem de proteção, porque a comida que levamos para a mesa é também parte desse mapa de sobrevivência. Penso que, se em vez de comida o saco tivesse brinquedos, eu não teria tido qualquer reação para tentar também amparar os ovos. É tudo puro instinto. Coisas infinitas que nos atravessam em dois segundos. Depois, há um conflito de emoções quando já não há nada a fazer, quando a queda acontece e vejo a cara do puto embater no chão sem que eu possa ter qualquer tipo de reação para o evitar, de poder rebobinar tudo e fazer com que a roda não se espetasse no buraco, com que eu me atrapalhasse todo, com que eu conseguisse encontrar o equilíbrio para não cair também. É uma sensação confusa de estar a ver aquilo e em vez de ficar aflito, excessivamente nervoso, perdido, a tentar amortecer o momento, fico antes com uma sensação de tranquilidade porque bem lá no fundo vejo que, apesar de tudo, não é uma situação de sobrevivência. É só uma queda (por culpa minha, neste caso), igual a tantas outras, e uns arranhões que vão ficar pouco bonitos, que me vão fazer assinar um relatório na próxima segunda-feira de escola, mas que vão passar. Só isto pode explicar esta confusão de sentimentos e um certo conforto por ser só aquilo, naquele preciso momento em que vejo o rapaz bater sem reflexos para se lançar com as mãos à frente. O instinto dele era certamente de que o pai o iria agarrar no último milésimo de segundo. E pronto, nada a fazer, caímos os dois, aleijamos-nos os dois. Mas os meus arranhões não interessam, não fiquei com marcas no nariz e estou mais preparado para estes arranhões do que uma criança. Agora só espero que tudo comece a cicatrizar depressa, os arranhões dele e a culpabilidade minha. Não há nada mais a fazer e há muito disto para esquecer nos próximos dias. Tudo menos uma coisa: 'não faz mal daddy' 'não faz mal daddy', 'não faz mal daddy'... não foi frase que me deixasse mais aliviado, perdoado, desculpabilizado. Foi frase que me fez sentir orgulhoso, frase de um menino a chorar, que na sua reação mais pura do momento tem capacidade de observar a situação e perceber que 'foi um acidente', que 'foi sem querer', que apesar da dor consegue dizer 'não faz mal daddy, foi um acidente'. Isto diz muito do ser humano que ele já é, e que por detrás daquele menino de comportamento por vezes difícil, silly, de bichos-cavalheiros, existe uma personalidade imensa.

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