Quando o Piruças chamou por mim eu estava num sono profundo. Ele raramente chama por mim a meio da noite (é mais a mamã) mas desta vez calhou-me, e eu apesar do sono profundo, levantei-me de imediato. Deve ser uma coisa instintiva no tom do 'Daddyyyy'. Ainda estava escuro, nenhuma luz a entrar pela janela, e foi a tactear a cama e o rapaz (agora) de cinco anos que eu vi que ele estava todo molhado, calças, camisola, a cama toda molhada também. Ele não tinha reparado que tinha feito chichi na cama , deve ter acordado só quando sentiu frio. Tirei-lhe o pijama e vesti-lhe um sport e umas cuecas (estava calor, por momentos pensei que aquilo era tudo suor), tirei os lençóis da cama e deitei-me ao lado dele, ambos da cabeça para baixo. Custou-me muito mais a adormecer a mim do que a ele. Tive de levar o despertador para a casa-de-banho para não ouvir o tic-tac, apesar de ele gostar do tic-tac e de não se importar com ele. Depois lá acabamos por adormecer os dois, cada um num canto possível, quer dizer, ele todo estendido e eu encolhido. Houve uma altura em que ele, já a sonhar, gritou ao meu ouvido 'Daddyyyy'. 'Estou aqui', disse baixinho, e ele lá continuou a dormir ou a sonhar ou as duas coisas juntas.
De manhã éramos dois sonâmbulos. Eu sem conseguir abrir os olhos e ele numa lentidão de noite semi-dormida. Demorou a tomar o pequeno-almoço, demorou a desanuviar as tripas, e quando eu abri melhor os olhos vi que ele estava todo preto, a cara, as mãos, a camisa branca, lavada e brunida. Era a tinta de uma balão do dia de aniversário. Só saiu com toalhetes, depois de muito esfregar. E já não havia tempo para muito mais, não encontramos os nossos bonés, não tomamos a vitamina C, não deitamos remédio-placebo na verruga. Saímos com o saco de saquinhos de prendas para os amigos dele da escola e um lápis afiado furou o saco de plástico, depois o saco de papel da Wholefoods, e espetou-se na barriga da perna dele quando ele insistia com esforço que queria ser ele a levar tudo. Só tive tempo de dizer à assistente para lhe deitar um pouco de água na perna (ficou com um ponto escuro por dentro da pele, mas o bico não partiu dentro) porque o portão estava mesmo a fechar e ele lá foi a correr sem o nosso habitual abraço. Eu ainda disse 'bye bye Oto', mas ele, a correr de saco na mão, não ouviu.
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