7.11.17
O Lado A tem o título ‘KAFKA (EFEITOS PARA A DEMO)’ e o Lado B tem o título ‘KAFKA (DEMO)’ e entre estes dois lados existe uma sessão de estúdio. Existe, portanto, um acontecimento que os separa. Enquanto que o Lado A é um rascunho de ideias, o Lado B é um resultado, não exatamente dessas ideias, mas de certa forma algo condicionado por elas. As três primeiras faixas do Lado A são toda a sequência da música Furchte Dich Nicht (Manifesto Anti-Nazi). Não determinaram a música, mas formaram a justaposição certa para uma sequência de dois acordes e dois versos. É uma colagem algo brusca e demasiado prolongada para ser vista somente como uma paisagem de fundo. Aliás, poderia ter sido ao contrário. Poderia ter sido um julgamento, um discurso ou um juramento de tropas com uma música de fundo a sair de um megafone de rua. Uma música fantasma. Há momentos em que não dá para perceber o que está em primeiro ou segundo plano. Às vezes soa a um todo corpóreo, outras vezes soa apenas a uma composição de duas faixas justapostas. Outras vezes não soa nem a uma coisa nem outra, porque a música nunca precisou do resto para realmente existir como música. Nem nunca nos serviu a Knives dos Death in June como um ponto de partida ou de referência. Desconhecíamos em absoluto o uso do mesmo detalhe na introdução de ambas as músicas. A faixa cinco ‘I’D RATHER LISTEN…’ ficou como introdução para a abrasiva guitarra de Je Suis Un Serf e é provavelmente uma das mais bem conseguidas pontuações da demo. Interessante a forma como a frase se repete: um simples skip back do leitor do CD. Não teria o mesmo efeito se fosse feito de outra forma. Eu era o ‘júnior’. Pronto a atacar com os três acordes do minuto 23 da versão da Dazed and Confused do The Song Remains the Same, os acordes de uma música dentro do improviso de outra: 'Mars, the bringer of war' de Gustav Holst. Na altura, eram apenas três acordes curiosos para quem ainda ouvia muito os delírios de Page e queria tocar guitarra como o Syd Barrett. O Holtz só entrou no cenário há poucas semanas graças à Wikipedia. A faixa sete é a primeira gravação da Her Only Nightgown – apenas guitarra acústica e voz. Não sei a que soa agora, mas na altura quando a ouvi, soou-me a uma demo dos VU, a voz falada muito à John Cale, embora não tivesse nada a ver com VU. Achei aquela composição/gravação um autêntico traço de simplicidade (mais uma vez os dois acordes) que nunca mais se conseguiu reproduzir da mesma forma. Além disso, a música acabou por seguir por outros arranjos, outras gravações, outras roupagens, deu o título ao disco seguinte, até acabar por surgir quase sempre em palco dentro de uma outra música com os mesmos acordes – Asylum Song. Esta não me fazia lembrar a voz do Cale. Esta era a voz camuflada do Lou Reed. As faixas quatro (ORGÃO/RÁDIO/VOZES) e seis (BILLIE HOLIDAY/INTRUSO) nunca foram usadas para nada. Não faço a mínima ideia do que sejam. O Nico é capaz de se lembrar porque foi ele que gravou isto tudo. Eu só tenho um leitor de cassetes avariado e uma grande vontade de copiar isto para um formato digital. Não é assim muito importante, mas há dias em que quero mesmo muito ouvir novamente a demo da Her Only Nightgown.
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