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21.10.17

um absurdo

Era a minha vez. Tinha tudo planeado, uma ideia perfeita dentro da cabeça, uma narrativa sonora pronta a ser disparada ao primeiro clique. Estava pronto. Sozinho no silêncio da espera. Mas as minhas mãos tremiam numa ansiedade de querer fazer tudo bem à primeira. Sem me perder. Sem sequer pensar. Mas era difícil estar ali a ouvir tudo aquilo que tinha sido feito duas horas antes. Erros, demasiados erros, e uma vontade enorme de esquecer aquela manhã e partir para outra: ou voltar a repetir tudo (há dias melhores), ou esquecer que tudo era realidade (ele há imensas coisas muito mais interessantes para fazer). E ali estava eu à espera. Aterrorizado ('quantas vezes é que me vou enganar?') à espera que tudo passasse muito depressa para sair dali, sobrevivente de uma má ideia. A fazer um esforço. A tentar ignorar e esquecer o que estava a ouvir: umas frequências muito pequenas, muito distantes, demasiado distantes. Apenas tinha de gravar a sequência de quatro acordes com a afinação esquisita, porque a primeira, com jack, era uma pista-guia. Tinha uma acústica Samick emprestada. Tão emprestada que, passados todos estes anos, ainda a tenho aqui comigo, mais por afecto do que por outra coisa qualquer. Eu a dizer que 'o melhor é gravar isto só com microfone porque este som é horrível' e a resposta 'ok, mas deixa ficar assim, por enquanto, depois vê-se'. Não poderíamos estar ali a perder tempo. Continuei. A música começava do nada, sem sinal algum, exactamente com o acorde aberto que correspondia à afinação esquisita C/F#/C/F#/C/E (nunca soube o nome deste acorde) e depois C. Repetia isto durante uns versos e depois passava para a sequência de Am e F. Assim sucessivamente. Quantas vezes fosse preciso. Porque esta era uma daquelas sequências sem princípio nem fim. Uma música que tinha saído de improviso numa madrugada de sexta-feira na casa de alguém. A música feita ali. A letra provavelmente acrescentada no dia seguinte, sábado à tarde de ensaio. (A afinação esquisita viria mais tarde.) E ali estava eu a tentar acertar nas minhas próprias frases e alguém a insistir para eu não parar de tocar, mesmo que me enganasse, porque havia sempre uma fórmula mágica de estúdio de emendar pequenos pormenores, erros, notas ao lado, coisas menos afinadas, sem ter de repetir tudo novamente. E foi assim que as coisas ficaram: as assimetrias entre as duas guitarras, as cordas a bater nos trastes porque me tinha esquecido que não poderia fazer o acorde ali tão em cima, e a maldita corda mais aguda que, de vez em quando, prendia no traste e fazia um som irritante, e que acabou por ficar lá durante a música toda. Só quando subi as escadas a preparar-me para fazer as emendas é que me é disseram que tudo o que estava gravado iria ficar assim mesmo, porque era assim que soava diferente e era assim que tinha de ficar: o som metálico da primeira guitarra, as cordas a bater nos trastes, a assincronia inevitável de duas guitarras a tentarem completar-se, o que era muito mais problemático na segunda parte da música em que o senhor jardineiro falava. Tudo algo disjunto. Sentei-me a ouvir. Mas, bem lá no fundo, eu queria sair era dali, ensaiar tudo aí umas mil vezes, e voltar para gravar tudo sem alma nenhuma.

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