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20.9.17

O microfone com uma esponja vermelha

Sou eu naquela fotografia queimada. Lembro-me bem do momento. No topo das escadas que serviam de palco e um microfone com uma esponja vermelha. Estou de olhos fechados. Tenho os meus quatro, cinco anos. Lembro-me de estar com alguém de quem só tenho uma memória muito vaga. Riam-se enquanto me tiravam a fotografia. Se tivessem uma câmara de filmar dir-me-iam para cantar mais. Eu era, muito provavelmente, o Marco Paulo a cantar os meus amores. Deveria saber mais músicas, mas só consigo lembrar-me dessa. Talvez também atirasse o microfone de uma mão para a outra, mais por malabarismo do que por imagem de marca ou estilo. Foi naquela casa, mas na parte de trás, que eu descobri o sabor do dióspiro. Não existem fotografias disso, mas eu lembro-me bem do diospireiro e de estar sentado em cima de um poço a comer fruto atrás de fruto. Talvez tenha vindo daí o fascínio pelas bolas cor-de-laranja dos microfones. Daí ou dos narizes dos palhaços.

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