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3.8.17

Preciso de férias (também)

Já não existe tempo para nada. Trabalho, ando de autocarro, preparo comida. Pratico meia hora de yoga (no máximo), respondo a e-mails, falamos um pouco no Skype, lavo os pratos, e é isto. São onze horas e está na hora de ir para a cama ler duas páginas de um livro de entrevistas sobre punk. Ligo o rádio para ter companhia. Adormeço.
Não se cobra esta falta de tempo numa semana ou duas. Não é uma mudança instantânea. São já anos de ausência e de hábitos que se vão sedimentando no invisível. Agora consigo perceber que não é simples. Não é de um dia para o outro, com o simples facto de nos encontrarmos sós por duas semanas, que desatamos a fazer as mil e uma coisas que faríamos noutras ocasiões em que temos de ir até ao parque, à piscina, às compras, etc. O tempo fugiu-nos e não sabemos muito bem como. Tentamos encontrar as explicações, mas elas são, digamos, desculpas superficiais para o estado das coisas.
Se calhar o tempo cria-se quando as condições estão reunidas para isso. Por exemplo, se eu for a sessões de yoga vou dar por mim numa prática de hora e meia, mas se eu ficar em casa fico por vinte, trinta minutos no máximo, quando não me ocupo com outras coisas e desisto da ideia. O mesmo é bem capaz de ser válido para tudo o resto. Se tivermos alguém com quem tocar, algum concerto para dar ou algo para gravar, certamente vamos tirar a guitarra do saco. Se tivermos algo para dizer e alguém para ler, certamente vamos encontrar aquela hora ao fim do dia para escrever umas palermices. É mesmo tudo uma questão de ter uma agenda e, vá lá, talvez um sítio onde possamos ter as nossas coisas e não ser interrompidos. Fora de casa, possivelmente.

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