Hoje é a barriga. Ou como diz ele: "doí-me a minha baguirra". Deitado na nossa cama, sem iPad nas mãos, recusa comer as bolachas que tem na mão há meia-hora e de cada vez que uma colher de papa de aveia se aproxima ele desvia-se com o lamento "doí-me a minha baguirra". Não lhe dói nada. O que pode doer é a fome ou a vontade de ir à casa de banho. Mas ele não faz uma coisa, nem outra. O que ele faz bem é lamentar-se por qualquer coisinha sem importância. Parte uma unha, chora; tropeça e faz um arranhão, chora; bate com a perna numa esquina, berra. A vizinhança começa a achar estranho tanto barulho, tanta berraria nesta idade, quando era suposto ele estar um pouco mais crescido e menos mimalho. Também não conseguimos perceber. Bem, a única coisa que conseguimos perceber é que as férias são demasiado longas. É uma quebra de rotina imensa e nem é muito a questão de estar fora de casa ou da creche. É mais a sedimentação de outros hábitos aos quais ele se habitua muito rapidamente. Daí que já estamos a ver um mês de setembro muito complicado. Em primeiro lugar, porque ele vai sentir a falta de nos ter sempre por perto, em casa, a ter de o obrigar a comer e, de certa forma, a pactuar com a mimalhice dos medos de agora: o escuro, o não querer estar só. Em segundo lugar, porque vai para uma escola nova e nisto há sempre a possibilidade de uma má e lenta adaptação. Mas pode ser que tudo corra bem.
As férias não são a causa disto. Isto são fases pelas quais eles passam (e têm) de passar. Os medos, as insegurança, o receio da mudança, o desconforto de estar num lugar cheio de gente nova. Eles sabem disto e sentem isto. As férias são também para quebrar rotinas, para comer gelados, para não ter horas certas para tudo, para correr e saltar. O que não pode acontecer nas férias (e fora de férias, em casa) é quebrar com todo o trabalho feito ao longo do ano, com uma certa disciplina que vem da creche e que precisa de ter continuidade na escola. Essa disciplina tem a ver com regras e com comportamentos que não são negociáveis. É que eles na creche são muito mais independentes, não pedem a ninguém para ir à casa-de-banho e não precisam de ninguém para lhes limpar o rabo. Bem ou mal, eles fazem-no. Existem também uma série de regras à mesa. Em primeiro lugar, é uma espécie de ritual em que todos se sentam em grupo e todos comem a mesma coisa. Em segundo lugar, para terem direito a certas coisas que eles gostam mais, têm de comer outras que gostam menos, e há sempre uma voz firme que os lembra disso. Em casa nada disto é fácil. Há dias melhores, outros piores e comer a sopa é sempre um jogo que nos rouba demasiado tempo. Mas com consistência as coisas vão lá. Demora tempo? Sim, demora. Há dias impossíveis. Há dias em que estamos tão cansados que cedemos. Há dias em que também estamos irritados, com as emoções em ebulição e sem paciência para nada. Nestes dias também não queremos comer a sopa. Queremos chocolates e outras coisas boas. Queremos espalhar os nossos brinquedos pela casa, saltar e pinchar, dizer disparates e mandar uns berros agudos. No fundo, também queremos atenção e que nos contem histórias antes de ir dormir.
Lembrei-me agora de uma coisa que me tinha esquecido de escrever aqui: "às vezes é preciso falar para as crianças como se elas fossem adultos e falar para os adultos como se eles fossem crianças".
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