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10.3.17

Ideias parvas de quem não tem mais nada que escrever e tem de as escrever (bem ou mal) para ter os pensamentos no sítio

É sempre um pouco estranho estar naquela situação em que estamos a ser postos à prova ou a ser sujeitos a uma espécie de avaliação que nunca é muito científica. São três meses de constante procura do comboio certo. Toda a gente tem já uma opinião mais ou menos certa e de certeza que já voaram considerações na minha ausência. É o típico comportamento de tribo ou, para ser um pouco mais politicamente correcto, de comunidade. Nunca é bem o nosso trabalho que é avaliado. É mais o nosso comportamento, os nossos gestos, reações, a forma como gesticulamos. Com isto quero dizer que é difícil perceber onde estou e para onde vou. Limito-me a fazer o dia. Umas vezes melhor, outras vezes menos melhor. Há dias em que há cansaço e é difícil ter a atenção a cem por cento. Há falhas de principiante, obviamente, distrações que se devem mais ao facto de não ter ainda a atenção apurada a todos os pormenores do que propriamente a incompetência. É um pouco como quando se aprende a andar de bicicleta. No princípio só conseguimos olhar para a roda da frente e só quando o cérebro começa a pensar sozinho é que começamos a olhar em volta e até a andar sem mãos no volante. Ou então como quando aprendemos a conduzir, sem conseguir fazer muitas coisas ao mesmo tempo e de olhar sempre na estrada. Mas assim que o cérebro começa a pensar sozinho e e faz com que a mão meta as mudanças por reflexo, lá começamos a olhar para os espelhos como deve ser, a espreitar o conta-quilómetros e o que está à volta. O trabalho com computadores não foge muito disso. Não é muito diferente de aprender a jogar um jogo. Com a prática já conseguimos olhar para os lados e reparar em todos os pormenores no ecrã, os pontos, o próximo quadro, enquanto ouvimos música e comemos bolachas. Os primeiros meses são difíceis porque se está sempre em desvantagem em relação a tudo o resto e não há ninguém com quem possamos estabelecer termos de comparação. Por outro lado, isso também é uma vantagem porque, julgo eu, se perdoam mais os erros normais de principiante e se é mais tolerante. Não que eu dê erros que fujam ao normal (toda a gente dá erros, mesmo quem tem experiência) ou ande à deriva. Eu até tenho alguma perspicácia em identificar pequenos pormenores que revelam erros dos outros. Apanhei já alguns e salvei alguns embaraços. Não há, portanto, uma clara destrinça do que é normal ou não. O que há é esta consciência de estar a ser avaliado nos pormenores e uma incerteza que de vez em quando vem ao de cima ao fim de um dia de trabalho. Hoje faz um mês que ando nisto e não há dia que eu não pense nesta incerteza - será que estou a fazer o expectável? Será que gostam de mim? (É sempre a mesma coisa de "gostarem de nós" principalmente quando não é fácil gostarem de nós) Mas porque eu também não sou assim tão inseguro e sei que tenho de contrariar os pensamentos irreais que brotam a toda a hora, tento sair um pouco da minha carapaça e pensar um pouco do outro lado do muro. Porque o outro lado também não pensa muito diferente de nós ("será que ele gosta disto?") e há sempre aquela condição de não se conseguir arranjar alguém melhor (do lado de quem emprega) ou de se poder arranjar alguma coisa melhor (do lado de quem está empregado). No fundo, tudo se resume ao momento e aos princípios mais primitivos de comunidade.

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