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2.2.17

Aos esses pela rua abaixo

Eu gosto quando o Piruças olha para mim do meio da sala e, com um sorriso de fazer covinhas nas bochechas, me diz xau xau e acena com a mão. É sinal de que está contente e de bom espírito para mais um dia de creche. É sinal que gosta da ideia de ficar o dia todo fora de casa, num sítio cheio de actividades e brincadeiras. É sinal de que gosta de estar ali a socializar-se e a aprender. Existe uma diferença abismal entre isto e os dias mais difíceis em que ele não quer ficar, diz que não gosta, faz birra e chora. Nesses dias ficamos todos moídos por dentro e custa-nos desligar os fusíveis emocionais. Ficamos mal dispostos, inseguros, com aquele desassossego dos dias cinzentos. Quando ele sorri irradia logo outra confiança. 'Vai à tua vida que eu estou bem'. E eu vou à minha vida com uma disposição bem mais positiva. Contente por ele estar contente. Um pouco mais seguro na procura incessante por um lugar neste mundo que tanto nos embrulha em preocupações como nos entrega a um mecanismo biológico de só dar importância aquilo que interessa. São as consequências da paternidade. Uma outra consequência é o ter de alinhar em certas coisas que muitas vezes são pouco práticas. Hoje, por exemplo, quis descer a rua na bicicleta dele. E assim fomos os dois rua abaixo. Eu a pé, sempre atento às curvas, e ele numa bicicleta que já é pequena para ele, capacete e mochila. Faz-lhe bem e creio que a mim também.

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