Há já alguns meses que ando à deriva. Sem grande rotina, nem obrigações laborais para cumprir num dia-a-dia de escritório mecânico. Os dias parecem maiores e há momentos em que fico a observar o pó cair no parapeito da janela. Têm sido tempos passados quase full-time com o Piruças. Levo-o de manhã para a crecehe e vou buscá-lo à uma da tarde. A manhã passa depressa (envio currículos, faço pequenas coisas) mas a tarde flui com o seu tempo próprio de criança. No princípio era difícil. A mudança de rotina teve as suas consequências: muita conversa mastigada para o conseguir vestir e calçar, insistências supérfluas para o fazer sentar no pote, algumas birras típicas de catraio de três anos. Mas tudo se constrói. Aos poucos lá nos fomos habituando um ao outro. Eu a perceber melhor como as coisas funcionam, sem grandes imposições, que o melhor é sempre dar-lhe a volta com conversa e com muito jeito; ele a comportar-se um pouco melhor, a participar em jogos sem obediência e sem comprometer o facto de ser um menino que está a crescer. No outro dia insistiu em sair de casa com os meus chinelos de meter o dedo. Tamanho 43 num pé 25. Andámos 50 metros e ele desistiu. É preciso deixá-lo fazer as coisas para que ele aceite o que lhe dizemos. É que não adianta muito tentar convencê-lo que os chinelos são demasiado grandes. Ele não quer saber disso. Na cabeça dele tudo é possível. E se der para dar uns passos, ele dá. Só quando se apercebeu que não podia andar tão rápido quanto gostaria é que nos escutou: "amanhã vamos comprar um chinelos de meter o dedo pequenos, para ti". Só assim é que ele aceitou. Procuramos chinelos por todo o lado e não encontrámos nada para o tamanho dele. Depois, sem intenção de mais procura, eu vi uns chinelos do Capitão América numa loja de £1. Dois dias depois foi uma alegria. Mal os viu disse (como diz sempre que tem alguma coisa nova): "que bonito!". Quis logo sair de casa para os experimentar, mesmo com chuva. Demorou, mas aos poucos lá se habituou a andar com aquilo.
Agora é tempo de férias a sério e de fazer coisas que andam a deambular há imenso tempo. A tradução do livro ficou pronta, mas os tipos que disseram que o iam lançar já não dão notícias há semanas. Talvez estejam demasiado ocupados com outras coisas, talvez estejam de férias, não sei. Mas também não fico nada admirado que tenham desistido da ideia. É um tipo de comportamento que me tem assombrado, seja a fazer coisas destas, seja a procurar emprego, seja a manter amizades. O mundo parece que se some de vez em quando. Aproveito também para rever algumas gravações de concertos antigas e de fazer alguma coisa com elas. São gravações de banda, coisas que estão guardadas há imenso tempo e que correm sempre o risco de ficarem para sempre enterradas num disco rígido sem nunca verem a luz do dia. Com sorte, em setembro, vou tentar tirar o pó às cordas da guitarra e fazer alguns improvisos. Por enquanto não vale a pena. Em breve vamos viajar e estar longe durante umas semanas e todo o tempo vai ser para distrair, descansar, e preparar o corpo para o novo ofício que vai começar em setembro, uma nova etapa. Ainda é cedo para dizer seja o que for, mas à partida existem nele algumas vantagens: mais convivência humana, pouco computador, mais férias, mais horas livres (vai uma grande diferença entre sair do trabalho às 16h ou sair às 18h30). Adivinho que vou ter mais vontade de chegar a casa e ligar o portátil para escrever ou gravar música. Mas isto é o que eu adivinho, não se escreve.
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