Da janela da sala vemos as garagens. Julgo que pertencem a inquilinos do prédio mais alto, mas é muito provável que já tenham sido expropriadas, vendidas, ou o que for. Recebemos mais uma carta do council (a câmara) a dizer que as demolições vão acontecer em breve e que um novo prédio vai ser levantado aqui mesmo ao nosso lado. À partida, não é nada agradável ter um mamarracho aqui ao lado, mas a paisagem de agora também não é nada agradável. As garagens estão abandonadas. Uma delas foi ocupada durante muito tempo por um desalojado. Era um tipo forte, entroncado, não parecia passar fome, mas de certeza que passou muito frio nos meses mais agrestes. Um dia desapareceu. Fechou a porta e não voltou mais. Deve ter arranjado um sítio melhor onde ficar e deve ter deixado as coisas todas no sítio, pelo sim e pelo não. Agora vemos umas movimentações estranhas: putos que aparecem à noite, às vezes em grupos. Ficam lá dentro no escuro, só com a luz dos telemóveis, a fazer sabe-se lá bem o quê. Alguns trazem sacos. O que trazem neles é uma incógnita, o que fazem é outra. Drogas? É muito provável. Mas que tipo de drogas?
Mas eu até gosto disto, deste mistério urbano que acontece nestes lugares anónimos. Gosto de olhar para os prédios. Gosto deste barulho de trânsito, das sirenes, do abrandamento dos sons quando chove. Vejo neste murmurar citadino o ritmo cardíaco dos pensamentos, o pulsar da energia que nos resta ao fim do dia, a ideia estranha de estarmos dentro de um corpo magnânimo que se movimenta a toda a hora, mesmo quando dorme profundamente.
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