24.8.15
Muita chuva
Não sei se consigo dizer isto melhor: as tecnologias estão a moldar-me o cérebro a desaprender a escrever. Eu explico. A escrita faz-se muito pela forma como flui e como as frases se vão encaixando umas nas outras. É, principalmente, uma questão de coordenação de silêncios e de uma imagem mental temporária que desenha o presente entre a frase anterior e a frase que está para vir. Quem domina isto não precisa de estar a reler o que escreveu em cada duas frases porque sabe de antemão, de forma abstracta, o que está lá escrito. Ora, esta habilidade foge-me sempre que escrevo num telemóvel porque nele a escrita é mais lenta e o ecrã muito mais pequeno. Assim, dou por mim muitas vezes a ler frases disjuntas, sem relação alguma entre si, ou pouco fluídas. Concluo e aceito, sem complexos, que escrever num telemóvel não é a mesma coisa que escrever à mão em papel. Cada escrita no seu galho. O problema começa porém a ser grave quando a constante adaptação do cérebro à escrita num telemóvel começa a esculpir uma escrita desalinhada em qualquer plataforma, seja ela num caderno, num teclado de computador, ou numa máquina de escrever.
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