25.8.15
Greve desconvocada
Existem várias doenças de escritório. Muitas delas têm que ver com uma paranóia mal resolvida de classe operária e com uma incapacidade de se saber estar no posto sem estar a fingir que se trabalha. Na fábrica fugia-se para a casa de banho. No escritório moderno foge-se para o Facebook. É tudo uma questão de tecnologia, porque as relações laborais são na sua essência muito idênticas. É um ver se te avias. A única grande diferença reside na forma como se acometem as falcatruas. A inveja deu lugar a um bitching. O abuso de poder deu lugar a um passive aggresiveish. A troca de favores deu lugar a um lickassishing. Tudo nomenclaturas sofisticadas para descrever aquilo que se fazia na fábrica do século passado. Poderíamos pensar que houve uma evolução. Não. Tal é uma ideia errada. Continuamos a viver as mesmas angústias dos operários fabris. A única grande diferença é que agora existe ar condicionado. Mas é precisamente neste aspecto que dá para perceber que não houve evolução da indústria para o sector terciário - as temperaturas estão quase sempre abaixo de zero pois o operário sente o calor dos computadores como se fosse o calor das máquinas de uma estamparia. E, para piorar a situação, não existe ninguém que se atire ao maldito posto de controlo do termóstato. A revolução por uma coisa destas é uma miragem e o direito à greve de hoje só existe nos livros de história e nas profissões subterrâneas. Assim, o operário deixou de ser fabril para ser febril. Sempre em altas temperaturas corporais dentro do escritório (mesmo sendo o indicador no rato o único movimento que faz durante um dia inteiro) para dar uso ao ar condicionado. Sempre disposto a trabalhar a partir de casa pelo espirro mais fecundo. Sempre um génio ligado às máquinas que (dizem!) fazem inteligência.
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